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A história é conhecida. Enquanto dura a prosperidade, todos são amigos. Quando chega a conta, as inimizades florescem.  A Europa vai catando os restos de sua tão celebrada união política, consagrada com a adoção de um único sistema monetário, dentre os 17 países que aceitaram as regras estritas para a manutenção sólida do Euro.

Outros 10 países optaram por manter as suas próprias moedas, muito embora façam parte da União Europeia. Hoje sofrem os efeitos propagados pela afobada união monetária do início da década passada.

O infográfico abaixo mostra a festa da gastança. Publicado pela revista The Economist o mapa mostra o nível atual de endividamento dos países. Quanto mais claro ou verde a legenda, menos endividamento em relação ao PIB; quanto mais próximo do vermelho, maior é a dívida pública em relação ao PIB.

Fonte: http://www.economist.com/node/21536871?fsrc=scn/fb/wl/ar/veryshorthistoryofthecrisis

Portugal, Irlanda, Itália e Grécia (os chamados PIIGs) se destacam, com níveis de endividamento superiores a 100% do PIB. Muitos alunos me perguntam: como pode isso acontecer? Como um país pode se endividar mais do que produz em um ano? Usemos um exemplo corriqueiro.

Imagine que você, leitor ou leitora, ganhe R$ 1.000 mensalmente. Ao longo de um ano, você ganhará o equivalente a R$ 13.000 (12 meses mais 13o. salário, supondo que você seja registrado com carteira de trabalho). Recebendo uma ligação do seu banco, você descobre que tem uma linha de crédito para comprar um automóvel, mais um limite no cheque especial de R$ 2.000 e um cartão de crédito com limite de R$ 1.500 mensais.

Você compra um automóvel popular que, no Brasil, tem preços de elite europeia, em torno dos R$ 26.000, com prazo de financiamento de 50 meses. Além disso, um familiar adoece, exigindo pagamentos de consultas médicas e procedimentos hospitalares mensais de R$ 1.000. Por fim, a sua manutenção pessoal exige gastos de R$ 800 mensais.

Com isso, as parcelas de R$ 500 do automóvel, mais os R$ 1.000 do hospital, somados aos R$ 800 de gastos pessoais geraram um gasto de R$ 2.300. Ou seja, sem contar os juros das parcelas e do cheque especial (que você obviamente vai ter de usar), você precisa juntar 130% de seu salário apenas para manter as contas em dia. Com o automóvel sozinho, você já se endividou em 200% da sua renda anual.

As faturas chegam e seu salário termina antes de o mês chegar ao fim. Você vai ao banco desesperado(a), porque precisa da extensão do limite do cheque especial. O banco aceita, porém, agora passa a se preocupar com a sua renda. Pergunta se você poderá manter os pagamentos com o dinheiro que recebe. Você diz “sim, com certeza”. Ao que o gerente do banco retruca com a imposição de uma análise de crédito, que outro departamento do banco fará.

Apreensivo(a), você aguarda alguns dias. Enquanto isso, seus almoços estão mais rápidos e mais simples, suas roupas se depreciam e seu lazer é abruptamente reduzido.

Chega a resposta: a taxa de juros vai subir para 18% ao mês, dado o risco de inadimplência deste empréstimo. Você diz: “18% a.m.? Que absurdo!” Depois se lembra e pergunta: “Quanto era mesmo que eu pagava antes?” Em resumo: você está passando por um problema de liquidez.

As semanas vão passando e os compromissos se acumulam e os limites de crédito ficam novamente muito estreitos, sufocando suas finanças. Você volta ao banco para pedir nova linha de crédito.

Sua dívida já alcançou os inacreditáveis 300% da sua renda anual. Isto é, você teria que trabalhar 3 anos apenas para pagar o estoque da dívida (o chamado principal), sem contar os serviços dos juros escorchantes (você deve imaginar o que significa esta palavra).

Neste momento, você para de pagar os juros e vai para uma renegociação com o banco. Você declarou moratória (default) de sua dívida, ou seja, vai parar de pagar os juros. A dívida continua, no entanto, crescendo diariamente. O banco nota que seus compromissos são impagáveis.

Atualizando o resumo: Você acaba de se tornar insolvente. Mesmo se vendesse todos os seus ativos (carro, livros, casa etc.) você não conseguiria pagar suas dívidas.

É isso que aconteceu com os PIIGs da zona do Euro, guardadas as devidas proporções e as imensas complexidades que afetam os governos, as quais em muito diferem das que acometem uma família, bem como as saídas possíveis desta situação.

Este post buscou apenas ilustrar a dinâmica “bola de neve” da dívida. Numa próxima ocasião, daremos nomes aos agentes econômicos, para que a crise vá assumindo contornos mais claros para que os leitores possam entender o porquê de tanta conversa a este respeito.

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