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Os mercados assumiram um papel evidente nos últimos meses: fornecer aos governos da Europa um senso de urgência que, em face da paralisia decisória de seus líderes, parece ausente.

Os mercados passaram a pressionar a política, reclamando decisões firmes e consistentes, aproveitando-se da maior fragilidade dos mesmos: suas dívidas soberanas. Irlanda, Portugal e Grécia são exemplos que parecem longínquos no passado.

O mais recente foi a queda de Silvio Berlusconi, efetivada com os temores de insustentabilidade da dívida italiana que totaliza quase 2 trilhões de euros, com 300 bilhões vencendo no ano que vem. Ou seja, o governo italiano deve conseguir este montante para conseguir manter-se solvente, como já mencionei em outro post.
 

A economia italiana está, de fato, afogada por uma legislação trabalhista que emperra a produtividade do trabalhador e das empresas, elevando sobremaneira os custos de produção e tornando inflexível o mercado de trabalho. A foto abaixo parece fornecer uma pálida ideia do aguarda a Itália, se medidas de ajuste de sua economia não forem tomadas de forma a elevar a produtividade.

A Zona do Euro passa por um momento delicado, em que a perda de confiança se alastra. Com isto, as pessoas adotam um comportamento defensivo, como mostra o gráfico abaixo, recorrendo à liquidez plena do papel-moeda. O dinheiro foge dos bancos e vai para debaixo do colchão.

Os bancos, por sua vez, assistem à queda de suas reservas, sendo obrigados a se desfazer de títulos que guardavam em suas carteiras. Selecionam, então, os títulos mais fáceis de se vender, ou seja, que tenham maior liquidez. Estes são os títulos de dívida dos governos, ou títulos de dívida soberana. O efeito é o vaivém das taxas de juros no mercado de títulos, como mostra o gráfico abaixo.

Evolução das taxas de juro da dívida italiana: a dívida a um ano já paga mais que a dívida a dez anos

Fonte: http://www.bloomberg.com/quote/GBTPGR10:IND

Para entender como funciona a dinâmica dos títulos de dívida, tomemos um exemplo estilizado simples. Peço licença para flexionar um pouco a teoria das finanças com o fito de tornar mais didática a apresentação do tema.

Um título de dívida é uma promessa de pagamento. No caso, um governo promete que daqui a um ano, por exemplo, lhe pagará um valor de US$ 1.000. Isto significa que entre hoje e um ano, decorrerá um período pelo qual o governo está disposto a lhe pagar um valor, a taxa de juros. Ou seja, descontamos do valor a ser pago daqui a um ano uma “comissão” pelo empréstimo concedido. Ao trazermos o valor final do título ao valor presente, temos que o dinheiro que o governo receberá hoje será menor que US$ 1.000 (isto é, US$ 1.000 – juros). Senão, vejamos.

A tabela abaixo mostra dois cenários com diferentes taxas de juros. O valor final do título é o que o tomador (Governo) promete pagar na data futura. O preço de mercado representa o valor que os investidores estão dispostos a pagar pelo título de dívida hoje. A diferençe entre o valor presente e o valor futuro é fatia dos juros, isto é, o custo de antecipação do capital. O valor dos juros dividido pelo preço de mercado nos dá a taxa de juros.

Entre o cenário 1 e o cenário 2, ocorre, por exemplo, uma desconfiança por parte do mercado, de forma que os investidores começam a vender os títulos que têm em mãos. Com isso, a oferta de títulos aumenta, ocasionando a queda do preço de mercado dos mesmos. A diferença entre o valor presente e o valor futuro aumenta; com ela, sobe a taxa de juros, no exemplo, de 5% ao ano para 25% ao ano.

Uma imagem nos ajuda a entender. A deterioração das expectativas do mercado força um aumento da taxa de juros dos títulos soberanos, obrigando o governo a pagar mais juros aos credores, como podemos ver na seção superior do gráfico abaixo.

Neste caso, é importante que os governos se mostrem firmes na solução dos problemas. Se a confiança dos investidores retornar, eles passam a demandar os títulos da dívida, elevando seu preço de mercado e, com isso, reduzindo as taxas de juros. Passa-se, então, do cenário 2 ao cenário 1.

Você deve se perguntar: por qual motivo isso é ruim? Tomemos o caso da Itália. Suponha que o governo precisa um empréstimo de um milhão de euros .

No cenário 1, o governo precisa emitir 1.053 títulos com o valor de 1.000 euros, uma vez que ele ganha hoje apenas 950 euros por título (ou seja, 1.000.000/950). No cenário 2,  são necessários 1250 títulos do mesmo valor. Quando os títulos vencerem, o governo será obrigado a gastar mais de suas receitas com serviços de juros da dívida pública.

A figura abaixo mostra o comportamento recente dos títulos de dívida de três países que vêm levantando preocupações: Itália, Espanha e França.

As elevações ao final do período mostram as incertezas quanto à capacidade dos governos corrigirem os desequilíbrios em suas contas. Os investidores vendem os títulos, elevando as taxas de juros.

É aqui que entra a figura do Banco Central Europeu (BCE) que, ironicamente, tem como presidente um italiano, Mario Draghi, recentemente empossado no cargo. Se o BCE comprar os títulos de dívida dos países em crise, elevam-se os preços de mercado dos títulos, reduzindo-se as taxas de juros.

A questão é que, para fazer isso, o BCE deve imprimir euros, o que pode levar a pressões inflacionárias. E isto, a Alemanha já deixou claro que não aceitará.

O resultado é a proposta de criação do eurobônus: um título de dívida de toda a zona do euro. A ideia é eliminar as tensões localizadas, diluindo-as na credibilidade agregada do bloco econômico. Voltaremos a este ponto, em outra ocasião.

A conclusão a que se chega aqui é: quando os governos relutam, os investidores ficam ansiosos e temem perder dinheiro. Livram-se dos ativos arriscados. E neste momento, a verdade é o que se acredita e não o que realmente ocorre quando se olham calmamente dos dados. Eis o efeito manada: a irracionalidade coletiva transformada em tragédia.

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