Tags

, , , , ,

Ao longo do século XIX em diante, ocorreram debates interessantes sobre os limites da Ciência que procuraram definir os objetos de análise de cada ciência individualmente. A Economia não foi exceção neste processo. Nesta fase, surgem as definições do que é Ciência Econômica, quais seus métodos válidos de análise, seus fenômenos de interesse, etc. Essas discussões de alguma maneira agora se colocam novamente em razão da crise econômica iniciada em 2007 e que ecoam nos comentários que tanto lemos dos principais articulistas e economistas da atualidade. A apresentação deste tópico pode discutir um pouco das dúvidas que os estudantes de Economia possuem neste contexto de crise que tem origem ao menos em parte na maneira como a Ciência Econômica se construiu ao longo do tempo.

Quando se trata de discutir os limites da Economia como Ciência, um nome bastante importante é o de John Stuart Mill. De acordo com ele, para se definir o espaço epistemológico da Economia, deve-se notar uma distinção importante entre “arte” e “ciência”. A primeira está ligada à visão normativa das ações econômicas; a segunda, à visão positiva. A ciência lidaria com fatos; a arte com um corpo de regras ou direções para a tomada de decisão. Uma passagem marcante neste sentido é a de que a ciência toma consciência de um fenômeno, e busca identificar suas leis; já a arte propõe a si mesma um fim, e procura meios para torná-los reais (Essays on Some Unsettled Questions of Political Economy (1844: 312)). Assim, a Ciência Econômica trataria de fatos que estão alheios à vontade do cientista. A análise dos fenômenos de interesse permite identificarmos leis que como tal são perenes e estáveis. A vontade do cientista se manifestaria apenas no momento de uma decisão qualquer na qual as conseqüências previstas pela ciência pudessem ser ponderadas por critérios normativos. Apenas nesta situação, aspectos valorativos seriam importantes com o intuito de eleger cenários preferidos. Para tomar um exemplo simples, se há uma relação inversa entre taxa de inflação e taxa de desemprego, é a ciência quem informa sua existência e sua magnitude, mas é o tomador de decisão, a partir de julgamentos de valor, que escolherá com qual nível de desemprego e de inflação deseja conviver. Torna-se evidente neste contexto que estas recomendações de Mill aplicam-se diretamente ao Estado, ator relevante no mundo contemporâneo, em suas intervenções na Economia.

Entretanto, nesta busca por isolar os fenômenos econômicos, a Economia Clássica (ou Neoclássica, se preferirem) identificou que as intervenções do Estado na economia são perversas. Ou, segundo o jargão econômico, geram peso-morto por serem ineficientes. Esta visão liberal (normativa por princípio, inclusive, mas que é assunto para um outro post) argumenta diretamente que qualquer intervenção do Estado na economia é ineficiente. Até a Macroeconomia recentemente sofria influência desta visão, notadamente pelo posicionamento crítico ao pensamento Keynesiano, que atribuía um papel relevante ao Estado na reversão de crises econômicas. Assim, a Ciência Econômica clássica não identificou outras formas de compreender a intervenção deste Estado, a não ser em casos bastante particulares e estreitos, como em seu ramo chamado Economia do Setor Público. Mas ainda assim, permanece a interpretação neoclássica sobre o funcionamento do sistema econômico.

Porém, surge neste conjunto de argumentos uma questão importante. Se por um lado, o Estado é o ator com condições de tomar decisões econômicas por excelência e, apesar das recomendações dos economistas, continua a intervir na economia, por outro, afirma-se que suas ações gerarão ineficiência. Resta sempre o posicionamento normativo sobre o que o Estado deve fazer de acordo com os resultados previstos pela teoria, que neste caso está ligado basicamente em atribuir maior papel ao mercado e cuidar para que este funcione sempre bem. Com isto, deixa-se de lado a análise que a Economia poderia fazer sobre as ações que o Estado efetivamente toma, já que concretamente ele continua a intervir na economia de maneiras bastante diversas. Estas preocupações ainda estão muito confinadas a outro ramo, a Economia Política, e ainda assim, esta está permeada pelos mesmos pressupostos neoclássicos que condenam a atuação do Estado.

É este conflito que parece ocorrer no momento presente: as conseqüências da crise trazem a tona o contexto político, que é o lugar onde os afetados por ela reclamam suas demandas. Os grupos envolvidos, divididos em prejudicados ou responsabilizados pela crise, pressionam o Estado a resolverem seus problemas individuais. Porém, a Economia, teoricamente, apenas observa os fenômenos sem a inclusão do próprio Estado no modelo e não consegue, assim, sugerir proposições que acomodem as demandas destes grupos. A Economia apresenta soluções que são eminentemente técnicas e que observam os fenômenos de forma a quase isolar o Estado ou qualquer outro ator social do contexto. Porém, infelizmente para a Economia, as decisões que o Estado deverá tomar são ao fim das contas eminentemente políticas. E pior, não estão conjugadas com as previsões teóricas elaboradas pelos modelos… Certamente, por conta desta crise, a Ciência Econômica não passará ilesa de voltar a discutir seus limites novamente.

Anúncios