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O monopólio europeu das preocupações do mundo tem tornado mais internacional o nosso noticiário. Como a aflição que os problemas causam é avaliada pelo tamanho relativo dos mesmos, é compreensível que a situação interna recebe uma parte menor neste momento. Mesmo assim, uma pausa para olharmos para o “nosso próprio umbigo” se faz mister.

Ontem foi dia de publicação de dados do PIB brasileiro pelo IBGE (acesse a pesquisa por este link). Como esperado, o PIB ficou estagnado neste último trimestre, com crescimento nulo (0%), ou seja, produzimos neste trimestre (julho-setembro) exatamente o mesmo valor do segundo trimestre e nada mais. A grande maioria dos indicadores apresentou queda perante os três meses imediatamente anteriores, com destaque para a indústria de transformação, que caiu quase 1% e para a agropecuário que cresceu 3,2%.

No ano, a produção já acumulou alta de 3,2%, o que está de acordo com as expectativas recentes que indicam um PIB para 2011 entre 3,5% e 4%. Como chegamos a este patamar? Quais são os principais eventos que nos ajudam a entender o comportamento do PIB?

Para ilustrar a dinâmica dos acontecimentos econômicos, lançarei mão do recurso “divisor de águas” para que tenhamos um referencial: a consolidação da crise da dívida Europa a partir de julho de 2011.

Primeira parte: a desaceleração entre janeiro e julho de 2011

Na esteira do forte crescimento econômico de 2010, que registrou impressionantes 7,5% (apesar de calculado em base baixa, pois 2009 foi ano de baixo crescimento), o governo passou a se ocupar da inflação com mais afinco.

No final de 2010, iniciou uma rodada de aperto monetário, isto é, encareceu o crédito com elevações do depósito compulsório e taxação de determinadas operações financeiras (as ditas políticas macroprudenciais), bem como embarcou no voo da SELIC com uma série de elevações na taxa de juros básica da economia até o patamar de 12,5%, como mostra o gráfico abaixo.

Interest Rate Chart

O canal da política monetária afeta a economia com defasagens inúmeras, de maneira que se torna impossível precisar quando se completam todas repercussões sobre a economia real. As estimativas teóricas acerca destas defasagens variam entre 6 meses e 2 anos.

Adicionalmente, o governo Dilma assumiu com o franco intuito de reduzir os gastos públicos, de forma a diminuir o déficit nominal do governo. Esta medida é dada pela diferença entre quanto o governo deve pagar de serviço de juros da dívida e a sobra de caixa do governo, isto é, depois que ele efetuou os gastos primários (Arrecadação – Gastos Primários), os quais se associam à manutenção da máquina do Estado (funcionalismo, material de escritório, viagens, combustível etc.) e aos investimentos públicos (PAC, Minha Casa Minha Vida, escolas, hospitais etc.).

Seguiram-se, portanto, reduções de gastos federais em praticamente todos os ministérios e uma forte secura de recursos para as emendas parlamentares dos deputados e senadores, o que explica, em grande parte, a enxurrada de denúncias de corrupção. Gasto governamental menor leva a menos renda, o que conduz a menos consumo, contribuindo para a desaceleração da economia e, por conseguinte, auxiliando na redução da taxa de inflação.

Como podemos concluir, o que vivemos agora é fruto destas medidas passadas.

Segunda parte: a crise na Europa e as reações do governo brasileiro

Pelo gráfico da SELIC acima, fica fácil perceber onde ocorre o “divisor de águas”. No dia 31 de agosto, o Banco Central surpreende  os mercado financeiro, contraria as expectativas dos operadores e baixa a taxa de juros em 0,5%. Concentrados ainda na evolução da inflação como indicador principal, os brasileiros demoravam a introjetar a profundidade da crise que se esparramava da Europa para o mundo.

Como complemento, no final de novembro, o governo anuncia um relaxamento fiscal, com isenção de PIS e COFINS e IPI em alguns produtos de maior consumo, bem como a redução da taxação (via IOF) de várias operações financeiras, com vistas a estimular a concessão de crédito.

Com mais empréstimos na mão, emprego estável e preços reduzindo (por conta da redução dos impostos), o brasileiro tende a gastar mais, principalmente com a chegada do final do ano e as datas comemorativas do Natal e de Ano Novo.

Além disso, os dados publicados anteontem pela União Europeia mostram que uma recuperação pode estar se ensaiando. É ainda cedo para esperanças em demasia, mas o mero fato de os países não terem sofrido grande queda já é, em si, alvissareiro, conforme o gráfico abaixo, do economista André Perfeito, da Gradual Investimentos.

O Brasil tem motores próprios para enfrentar a crise. No lado da demanda, as exportações sustentaram o crescimento, impedindo uma queda maior, conforme infográfico abaixo, publicado na edição de hoje do jornal Valor Econômico. Além disso, as medidas tomadas a partir de agosto deste ano surtirão efeito contínuo nos próximos meses, elevando o consumo, a produção e o emprego.

Resta saber se as exportações persistirão nos sustentando, dadas as incertezas que rondam a China, a Europa e os EUA. Se estes países conseguirem animar as suas economias, mesmo que timidamente, nossas exportações não sofrerão muito. Caso contrário, teremos que substituir as cores do infográfico acima, reorientando a produção para dentro, compensando a possível queda das exportações pelo aumento do consumo das famílias e do governo e pelos investimentos.

Como sempre, aguardemos.

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