Tags

, , ,

Em razão dos inúmeros escândalos que a mídia tem noticiado de corrupção envolvendo ministros neste início de governo Dilma, articulistas têm aclamado por ações que vão desde a reforma do Estado até uma revolução ética pela moralização do serviço público no país. Ainda que seja completamente condenável qualquer prática de corrupção, tais escândalos alteram apenas nossa percepção sobre a corrupção e nada dizem sobre seu nível efetivo. E é preciso ter muito cuidado com indicadores deste tipo, conforme sugerem trabalhos recentes.

De acordo com pesquisas que lidam com a relação entre corrupção e comunicação, o cidadão comum tende a ser influenciado pela mídia em sua percepção sobre corrupção. Em trabalho realizado em Portugal em 2010, Poeschl e Ribeiro mostram que os veículos de comunicação servem como material para as trocas entre os indivíduos sobre o tema e que o meio social no qual circulamos tende a ampliar nossa percepção sobre os eventos de corrupção.

Se ainda considerarmos que a mídia tem a capacidade de escolher quais acontecimentos divulgará, ela opera como base para uma impressão geral que será reforçada pelas conversas individuais. Como ressalta ainda o já consagrado Bourdieu, em texto de 1979, as fontes de informação variam geralmente em função dos grupos escolhidos pela melhor adequação ao seu sistema de pensamento. Tudo isto em conjunto sugere que tendemos a obter informação sobre corrupção em veículos de informação de acordo com nosso sistema de pensamento. Nossa opinião será ainda reforçada pelo meio social no qual convivemos, formando nossa percepção sobre os níveis de corrupção.

Devemos ressaltar também que os autores mostram que níveis menores de corrupção, mais ligada ao nosso dia-a-dia, tendem a ser maior quando a percepção da corrupção também for maior ao nível nacional. Isto conduz a um outro problema que é a própria definição do que é corrupção. Este problema, já clássico dentre os estudiosos do tema, acaba por ser acirrado quando o cidadão comum tende ele próprio a cometer pequenos delitos ou atuar no limiar da legalidade, o que volta a alterar a percepção de corrupção.

Esta discussão sobre percepção é fundamental porque não é possível verificar o evento da corrupção concretamente. Ela não deixa rastros diretos. O mecanismo tradicional de identificação dos níveis de corrupção se baseia em entrevistas nas quais o tema é abordado. A organização Transparência Internacional é formuladora de indicadores com este fim e utilizados em pesquisas sobre o tema.

Porém, Benjamin Olken em um trabalho de 2009 demonstra que a utilização de indicadores de percepção não são adequados para refletir o nível real de corrupção. Trabalhando na Indonésia, o autor mostra que a percepção da corrupção em determinado experimento era maior nos casos de inflação de preços em relação à maior quantidade de material gasto. Ou seja, nota-se determinado tipo de corrupção, mas não outros.

Além do mais, características dos respondentes, como raça e participação social, por exemplo, influenciavam esta percepção. No mesmo sentido, em seu trabalho na edição de 2007 da Annual Review of Political Science, Daniel Treisman aponta para a necessidade de se criarem indicadores que estejam baseados mais em fatos concretos do que em percepções sobre corrupção. Os indicadores atuais baseados em percepção não estão fortemente correlacionados com os indicadores que mensuram experiências concretas.

Por fim, Bo Rothstein, em texto publicado este ano na Review of International Political Economy, discute as proposições de mudanças que visam reduzir a corrupção.  A pesquisa parte de uma perspectiva institucional, na qual os indivíduos agem a partir de suas percepções de como os outros indivíduos agirão, e se desenvolve a partir da existência de dois modelos possíveis de combate à corrupção: um gradual e outro de choque, chamando “Big Bang”.

A conclusão a que se chega é a de que modelos gradualistas, em que pequenas alterações vão sendo feitas, não levam à erradicação da corrupção, pois há um problema de ação coletiva ali. Ao contrário, permitem que os atores se adaptem às novas regras e mantenham-se em posições das quais possam extrair renda. Desta forma, políticas de choque, de ruptura, seriam as consideradas mais adequadas, pois alteram a perspectivas de cada agente sobre o que os demais farão, desincentivando as práticas de corrupção em todas as instâncias.

Ainda que seja relevante discutir o tema e lutarmos contra tais escândalos, afinal de contas, é impossível ser a favor da corrupção, algumas lições podem ser tiradas destes breves resumos apresentados aqui: 1ª) nossa impressão sobre corrupção não é um indicador confiável do nível real de corrupção existente em nossa sociedade; 2ª) devemos sempre avaliar o posicionamento ideológico do veículo de comunicação do qual extraímos nossas informações. Se ele for contrário ao governo, mais corrupção surge; se for favorável, menos; 3ª) muitas das sugestões propostas para “acabar com a corrupção” podem atender a vários outros propósitos e até serem moralmente necessárias, mas podem não conseguir seu principal intento. Está claro que precisamos discutir ainda mais este assunto, inclusive sobre o papel da sociedade civil neste contexto, para termos proposições concretas que de fato atenuem este grave problema da sociedade brasileira.

Anúncios