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O fim de ano é fértil em reflexões. É momento de olhar para o passado recente e pesar esforços e recompensas e rever os rumos de nossas vidas. Neste sentido, aproveito para oferecer uma reflexão rápida sobre a nossa ciência econômica, de forma que os estudiosos do assunto (todos somos alunos, neste tocante) possam apreender os rumos que ela vem tomando. Eis um post sobre história do pensamento econômico e metodologia da ciência.

Todo o estudante de Economia sofre com a carga de disciplinas de métodos quantitativos. Chega-se a pensar que economia é sinônimo de matemática. No entanto, dois pontos são importantes de se reter: (1) nossa matemática é mais cálculo que aritmética, ou seja, é uma matemática de letrinhas, principalmente advindas do alfabeto grego; e (2) a ciência econômica não é, apesar de muitos tentarem torná-la, uma ciência exata.

Aprendemos que todo agente econômico racional deva maximizar a sua utilidade e que toda firma, em contrapartida, otimiza a sua produção maximizando o seu lucro. O mercado e, também, a sociedade, não passariam da soma destas decisões. Logo, compreendendo o comportamento dos indivíduos, deduz-se o comportamento da sociedade.

Esta abordagem recebe, nas ciências sociais, o nome de “individualismo metodológico”. Ela se tornou muito presente na economia a partir de meados do século XIX e hoje predomina tanto na macro quanto na microeconomia moderna. Contudo, um problema se apresenta nesta forma de pensar.

Recorro a um eminente pensador econômico do final do século XIX que, ainda na era vitoriana do império britânico, fazia uma economia fecunda em estilo e com elevada intuição. Diz Alfred Marshall que “o economista, como todos aqueles que estudam a Ciência Social, tem que se ocupar dos indivíduos, sobretudo como membros do organismo social”. Ou seja, precisa-se entender como a sociedade interfere nas decisões dos indivíduos (“the many in the one”), bem como os efeitos das ações individuais sobre o coletivo (“the one in the many”). (Alfred Marshall, Industry and Trade, 1920).

Salienta-se, assim, o caráter social da economia, a partir do qual não se pode simplesmente somar os indivíduos e suas ações para que se compreenda o funcionamento da sociedade. Requer-se do estudioso mais sutileza de visão, pois “do mesmo modo que uma catedral é algo mais que as pedras de que é feita, assim como uma pessoa é algo mais que uma série de pensamentos e sentimentos, assim também a vida da sociedade é algo mais que a soma da vida dos indivíduos”. (Marshall, Princípios de economia, 1996, Ed. Abril, p. 93-94).

Não há nada de novo no que Marshall está apontando. Émile Durkheim já havia postulado tal pensamento na fundação moderna das ciências sociais, por meio do conceito de fato social. O que importa em recebê-lo de Alfred Marshall é que este autor é considerado o grande sintetizador e codificador da escola neoclássica de economia. No entanto, esta classificação apouca a grandeza de Marshall, como é comum de qualquer classificação.

Formado originalmente em matemática e economista de vasta erudição, Marshall impressiona, ao direcionar o leitor para o problema ético envolvido em análises excessivamente abstratas do problema econômico: “As forças éticas estão, entretanto, entre as que o economista deve considerar. Tem-se tentado, na verdade, construir uma ciência abstrata com respeito às ações de um ‘homem econômico’, que não esteja sob influências éticas e que procure, prudente e energicamente, obter ganhos pecuniários movido por impulsos mecânicos e egoísticos”. (Marshall, Princípios de economia, 1996, Ed. Abril, p. 56).

Neste sentido, se tomássemos como base apenas o comportamento individual maximizador e seus “inequívocos” resultados socialmente desejados, como poderíamos explicar a ocorrência de fenômenos como as corridas bancárias, crises financeiras, engarrafamentos no trânsito, exaustão de recursos não-renováveis, dentre inúmeros outros? As questões sociais impõem a conexão entre as decisões individuais e seus efeitos sobre o grupo social.

Como nos ensinou o grande Abba Lerner, a economia tornou-se a “rainha das ciências sociais” escolhendo como o seu domínio “os problemas políticos já resolvidos”. (Abba Lerner, The Economics and Politics of Consumer Sovereignty In: The American Economic Review, Vol. 62,  1972, p. 258-266). Isso implica um reducionismo indevido do pensamento econômico a mera questão técnica, como encontrar a maximização de utilidades ou do lucro, ou otimizar uma resultado social no sentido de Pareto. Quem define as condições sob as quais devemos maximizar? Eis o terreno da política, da determinação dos rumos da sociedade; enfim, do desenvolvimento social e econômico.

Como se vê, Marshall faz parte de uma ciência econômica que ficou na poeira da história. Mesmo assim, a leitura dos clássicos nunca perderá o seu valor. É sempre um convite a um pensamento mais rico, mais nuançado e, principalmente, mais repleto de realidade. Com isso, não imaginemos que a matemática perde o seu valor, nem que haja muita matemática na economia. Em verdade, a complexidade dos fenômenos exigiria muito mais matemática, porém, com uma aplicação distinta, honrando o problema de compreender como a interação dos agentes conduz a resultados sociais cujas causas ficam escondidas.

Supor que a agregação de decisões individuais nos trará a adequada apreciação do fenômeno econômico equivale a resolver o problema de como transpor um elefante para um barco supondo que seu peso seja igual a zero. Fujamos desse caminho!

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