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O mundo acorda diariamente, em seus inúmeros fusos horários, com novidades sobre a Europa. Os remendos nesta imensa colcha que é a União Europeia começam a borrar a nitidez que marcou o projeto político de um único bloco de países, uma espécie de “Estados Unidos da Europa“.

Quando aconselhada pelo desejo pueril, a esperança se converte na ingenuidade manifesta no sobrepeso dos benefícios esperados em detrimento de uma análise cuidadosa dos custos envolvidos. Neste caso, os custos são elevados, porque os problemas são de grande magnitude.

Imaginando que tudo se resolverá com a boa vontade política de seus parceiros de grupo e com o dinheiro do resto do mundo, os líderes europeus parecem se esquecer de uma máxima da teoria econômica: só se pode distribuir aquilo que foi produzido. E o que gera produção é investimento de energia humana na direção desejada pela sociedade, ou seja, crescimento econômico por meio do aumento da produtividade.

Contudo, uma “linha de falha” divide o bloco e causa abalos nos mercados financeiros, como aquela que divide duas placas tectônicas e cria instabilidades sísmicas. O retrato da divisão norte-sul é dado pelo gráfico a seguir: Grécia com baixa produtividade, como já se sabia; porém, a Itália chama a atenção pela queda disciplinada e sistemática desde meados da década de 1990. Alemanha e França com elevadas produtividades, representam as economias mais fortes.

Produtividade menor implica crescimento menor, o que resulta em incapacidade de produzir tudo o que a população necessita. Quando isso ocorre, as importações tornam-se o complemento da produção interna e a fraca criação de empregos é complementada com gastos do governo com assistência social, tais como seguro desemprego e aposentadorias precoces.

O gráfico abaixo apresenta o comportamento da conta corrente do balanço de pagamentos da economia, o que registra as relações de um país com o resto do mundo. Quando o saldo das transações de bens e serviços é positivo, em essência,  o país está se beneficiando do comércio internacional.

Vemos que apenas Alemanha e Holanda tiraram bons frutos comerciais da zona do Euro. Itália e França (segunda e terceira maiores economias do bloco) seguidas por Grécia (a de situação mais preocupante), Espanha e Irlanda ficam deficitárias, isto é, estão comprando do resto do mundo mais do que vendendo. Em outras palavras, substituem produtos nacionais por produtos estrangeiros, transferindo para fora os empregos que poderiam criar dentro de suas economias.

A participação em um grupo seleto como este prometia prodígios que não foram ainda testemunhados pela periferia da Eurolândia, tais como um mercado único de trabalho, assistência social uniforme e uma política fiscal única para todos.

Embarcando nestes sonhos, à espera de frutos sem esforços consistentes, os governos se puseram a gastar, e não hesitaram em desrespeitar o limite de 3% do PIB imposto pelo Tratado de Maastricht (assinado em 1992) ao tamanho do déficit público dos países.

A figura abaixo mostra o impacto da crise financeira de 2008, quando vários governos saem de uma situação confortável, dentro dos limites do tratado, para uma situação de crônico déficit público, com exceção da Finlândia. Até mesmo a austera Alemanha, foi obrigada a gastar mais do que arrecadou e romper o tratado de Maastricht para salvar seus bancos altamente expostos ao sistema financeiro internacional.

A dúvida é, portanto, a seguinte: será este pacote de medidas suficiente para fechar a “boca do jacaré” que divide a Alemanha dos outros países do bloco? Como mostra o gráfico abaixo, desenhando os ganhos de comércio da Alemanha contra as perdas comerciais dos GIPS (Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha), desde 1999, os ganhos estão desequilibrados.

Krugman current accounts graph

O norte, mais produtivo, beneficiou-se de uma desvalorização cambial. Somando-se os dois dados, o saldo comercial é estonteante. O sul é menos produtivo e, ao entrar no euro, a taxa de câmbio se valorizou. Os produtos nacionais não conseguem concorrer com os importados mais baratos, os empregos são destruídos e o mercado interno perde dinamismo, passando a depender de incentivos artificiais de governo.

Com mais detalhes, o infográfico abaixo mostra a diferença entre o desempenho dos países do Norte (centro da Eurolândia) e aquele dos países do Sul (periferia do bloco). Em resumo, o Norte está melhor em tudo que é bom: PIB per capita, produto por hora trabalhada, produção industrial e investimento direto estrangeiro. O Sul mostra sua primazia em todos aqueles que denotam desarranjo econômico: desemprego, dívida pública, taxa de juros de mercado sobre os títulos públicos e déficit público.

As medidas anunciadas recentemente são perfumaria para distrair o olfato do mercado financeiro. A única medida que pode tirar a Europa do drama atual é impulsionar o crescimento econômico, por meio de investimento em produtividade. E isto apenas ocorrerá quando o bloco superar seu estágio atual de união monetária e comercial e passar a ser uma união produtiva.

A dúvida reside em como fazer isso quando “linhas de falha” se abrem dentro do bloco, alargando as distâncias entre os países. O crescimento econômico é resultado  de esforços contínuos, sistemáticos e duradouros que vem apenas no longo prazo, e que não pode ficar refém dos tsunamis de variados tamanhos nos mercados financeiros internacionais, causados mensalmente pelas inconciliáveis diferenças entre os líderes europeus.

Se o crescimento econômico é solução fundamental, por quê não buscam o arranjo institucional que o propicie? Veremos em outra ocasião como o óbvio pode se tornar extremamente controverso, principalmente quando gera ganhos e perdas, responsabilidades e privilégios não compartilhados por todos os integrantes de um grupo. Enfim, é novamente o problema dos comuns, no plano macroeconômico, como já vimos em outra ocasião.

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