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Enquanto o Partido dos Trabalhadores exercia apenas o papel de oposição ao governo federal, carregava a bandeira da idoneidade política. O que se viu ao longo do primeiro mandato do presidente Lula nos leva a crer que esta não parece ter sido a principal motivação que o conduziu a permanecer na presidência da República desde 2002. Os escândalos de corrupção não foram suficientes para evitar sua reeleição, nem para diminuir a popularidade do atual governo Dilma que bateu recordes para o primeiro ano de mandato, como anunciado recentemente. Muitos acusam a oposição ao governo petista de incompetente na utilização destes escândalos também durante as campanhas eleitorais, atribuindo a isto as derrotas nas eleições. Indo neste mesmo sentido, petistas agora se acusam pelo silêncio frente ao livro recente de denúncias sobre corrupção no governo pesedebista. Nas conversas cotidianas, porém, muitos brasileiros se chocam com essa suposta contradição, já que os escândalos parecem não ter importância, argumentando algo como “o brasileiro não sabe votar”. Será que a corrupção pode mesmo ser um fator decisivo nas eleições?

Para discutir este tópico, pode-se avaliar como o cidadão escolhe seus representantes políticos do ponto de vista teórico. Dentre diversas vertentes existentes, na qual o posicionamento ideológico do indivíduo é importante, como brevemente comentado em outro post deste blog, uma delas mais pragmática está baseada na ideia de voto retrospectivo. Quando deve optar por um candidato, o eleitor está diante de uma escolha em que há elevado grau de incerteza. Ele não sabe ao certo como nenhum deles se comportará caso seja eleito. A fim de reduzir esta incerteza, o eleitor busca informações a respeito dos candidatos, o que tem um elevado custo. Uma alternativa utilizada pelo eleitor é associar o candidato da situação ao desempenho do governo. Assim, sua principal fonte de informação é a própria gestão daquele governo. Neste sentido, seu voto decorreria da seguinte pergunta: vale a pena trocar este governo por outro cujo desempenho são apenas promessas?

Duas considerações importantes aqui com relação aos critérios de avaliação do governo: a primeira é novamente o posicionamento ideológico do indivíduo, ou se preferir, a simpatia prévia do eleitor por determinado partido. Se me considero de direita ou de esquerda ou se gosto mais deste ou daquele partido, minha avaliação do atual governo passará por este crivo. Assim, se sou simpático ao PT, tendo a avaliar melhor este governo; se não sou simpático, tendo a ser mais crítico. Retoma-se aqui a importância dos meios de comunicação, da forma como o indivíduo constrói a sua percepção política, etc, como discutido em post anterior.

A segunda consideração se relaciona aos ganhos materiais obtidos pelo eleitor durante o governo. Este é chamado de voto econômico. O eleitor tenderia a avaliar bem o governo federal quando o desempenho econômico nos meses anteriores à eleição for bom. Quando for ruim, a sua avaliação sobre o governo se deteriora e consequentemente aumentam as chances para a oposição. Assim, se avaliarmos o desempenho econômico dos governos, teríamos condições de compreender o comportamento do eleitor. O gráfico a seguir nos fornece importantes informações para discutirmos o que aconteceu nas eleições desde 1994.

Fonte: IBGE/Ipeadata. Elaborado pelo autor.

O gráfico acima mostra as médias móveis de 6 meses para as taxas de desemprego e para o valor do PIB mensal, dados importantes para a avaliação econômica de um governo. Em 1994, como muito se afirma, FHC é eleito em decorrência do Plano Real. O sucesso no combate a inflação a partir de um plano econômico sofisticado tem repercussão política e conduz o então ministro da fazenda do Governo Itamar ao governo federal.

Note que o primeiro governo tucano é marcado por uma elevação nas taxas de desemprego, compensada por uma leve expansão do PIB médio mensal. Ou seja, se por um lado o desemprego piora as percepções sobre o desempenho econômico do governo, o aumento na renda a compensa. Além do mais, é um período de muitas crises econômicas, como as da Ásia (1997) e da Rússia (1998), o que sempre pode ser utilizado como um atenuante às flutuações econômicas. Considerando ainda que o Plano Real se prova um sucesso, seu governo é aprovado e FHC é reeleito. Já ao longo de seu segundo mandato, os níveis de desemprego pioram levemente e o desempenho medido pelo PIB também se deteriora suavemente. Com o reduzido apelo do Plano Real como fator de sucesso, estes dois fatores em conjunto podem justificar a opção dos eleitores em substituir o governo tucano por um petista.

No escopo discutido aqui, o mais interessante ocorre ao longo dos dois governos Lula. Os escândalos de corrupção se acumularam, se iniciando com os escândalos do mensalão até aqueles que envolveram a Chefe da Casa Civil no final de seu segundo mandato. Porém, o que se nota no gráfico acima é que neste período tanto o valor médio do PIB quanto das taxas de desemprego melhoraram substantivamente. A taxa de desemprego cai de um patamar médio de quase 15% para menos de 9%, enquanto o valor médio mensal do PIB sai de quase R$ 240 milhões para R$ 340 milhões ao final do período considerado.

Se estas teorias do voto econômico e retrospectivo estiverem corretas, os escândalos de corrupção teriam um elevado desafio: minar os efeitos econômicos concretos percebidos pela população. O eleitor tenderia a premiar o governo que, apesar das denúncias de corrupção, está conseguindo proporcionar-lhe melhoras materiais substantivas. Essas teorias explicam o comportamento do eleitor em qualquer democracia do mundo e há fortes indícios que no Brasil esta situação não é diferente. Ou seja, é preciso muito esforço mesmo para transformar a corrupção no governo federal em elemento decisivo de campanha eleitoral.

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