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Em 2011, com a queda de sucessivos governos europeus e sua substituição por governantes ligados aos mercados financeiros, mais marcadamente na Grécia – com a nomeação de Lucas Papademos, ex-vice-presidente do Banco Centra Europeu – e na Itália – com a ascensão de Mario Monti, ex-comissário da União Europeia – falou-se bastante sobre a primazia dos mercados sobre a democracia e, consequentemente, sobre a esfera política.

Passou-se a apontar, em diversas ocasiões, uma nova onda tecnocrática na Europa, ou seja, de governos comandados por especialistas, cujas decisões obedeceriam a critérios objetivos e racionais, o que, por sua vez, faria com que a sociedade não mais fosse dirigida segundo os interesses ou as visões de grupos políticos. A crise europeia, nesse sentido, teria imposto aos países mais endividados a necessidade de planejamento e controle que só poderiam ser bem executadas por técnicos competentes, menos propensos a grupos de pressão e antagonismos sociais e, portanto, mais capazes de “arrancar” maiores sacrifícios por parte da população em geral, já que não teriam que se preocupar com questões eleitorais.

Segundo o filósofo Jürgen Habermas, em entrevista ao jornal alemão Der Spiegel, o acordo entre as duas principais economias da União Europeia – que teria propiciado a ascensão de diversos tecnocratas na Europa – teria lançado o continente em uma era pós-democrática, na qual o federalismo europeu seria estendido em uma gestão intergovernamental conduzida pelo Conselho Europeu. Esse novo regime, segundo o filósofo, possibilitaria transferir os imperativos dos mercados aos orçamentos nacionais sem legitimação adequada, usando ameaças e pressões para obrigar parlamentos esvaziados de poder a colocar em prática acordos informais e pouco transparentes.

Maurice Duverger denomina esse fenômeno como “tecnodemocracia”, um sistema apoiado em organizações complexas e regionais que hoje não podem deixar de considerar os capitais financeiros mundiais, o que faria com que a política não fosse uma esfera autônoma, como descrita pelos cientistas políticos clássicos, mas sim altamente dependente da própria estrutura administrativa do Estado e dos negócios.

 

Portanto, estaríamos diante não apenas de uma falta de grandes figuras políticas, como De Gaulle, Churchill ou Thatcher, mas também de uma mudança na própria fonte de poder dos países no cenário internacional. Atualmente, a situação econômica dos países exerce forte influência sobre a sua posição no tabuleiro internacional, o que aumentaria a preocupação dos governantes com a atração de investidores internacionais que, em última instância, contribuiriam para a manutenção ou melhoria do bem-estar de sua população.

Entretanto, não pode-se esquecer que o fenômeno descrito acima – independente do termo para conceituá-lo – ainda seria um acontecimento restrito a uma parte do planeta, cuja organização política é bastante diferente de outras partes do mundo, já que busca uma organização pós-nacional.

O restante do mundo ainda estaria organizado sob a égide do Estado-nação e, portanto, da esfera política. Um olhar mais atencioso sobre outras regiões do planeta demonstrariam o quão esse fenômeno é circunscrito. Nos Estados Unidos, ainda considerados modelo da democracia liberal, o jogo político, apesar de paralisar certas decisões, ainda é relevante. Não se vislumbra no horizonte daquele país a possível ascensão de um governo de especialistas, já que os possíveis candidatos às eleições presidenciais do próximo ano seriam políticos de carreira e não tecnocratas como ocorre na Europa.

No mundo em desenvolvimento, fica ainda mais difícil encontrar similaridades com o fenômeno europeu. Chegou-se, em alguns momentos, a apontar que o Brasil estaria vivendo esse fenômeno, já que estaria sendo governado por uma presidente de perfil mais gerencial e menos carismático que seu antecessor. Entretanto, não se pode esquecer que a atual presidente teria ascendido não em instituições do mercado, mas sim dentro de um partido político e, consequentemente, pelo processo político democrático.

Esses foram apenas dois exemplos que ajudariam a demonstrar o quão restrita seria a ascensão da tecnocracia no mundo moderno, claro que existiriam outros, com  suas particularidades, como a China, hoje a principal economia do mundo, cujo Estado é organizado de uma maneira bastante diferente da ocidental, difícil, portanto, de ser tratada a partir das considerações tratadas neste breve comentário.

Portanto, deve-se, conforme foi tentado neste texto, tomar cuidado com avaliações apressadas que tomam uma questão regional, de caráter particular, como um fenômeno mundial. Para isso, teremos que esperar um tempo e ver se a onda tecnocrática mantém-se na Europa e, principalmente, se dissemina por outros países. Só aí poderemos dizer que existe uma mudança na política internacional.

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