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Como acontece em todo início de ano, surgem as mais diversas previsões sobre como serão os próximos 12 meses. A mídia de maneira geral nos brinda com discussões sobre o que será do ano das celebridades, quem será o campeão brasileiro de futebol e, também, como não podia deixar de ser, qual será o futuro da Economia brasileira. Neste ano, as bolas de cristal dos economistas devem levar em conta, por exemplo, o fato de 2012 ser um ano de eleições municipais, o que levará o governo federal a rearranjar o quadro ministerial e, consequentemente, sua capacidade de tocar sua agenda política. Porém, no atual estágio da Ciência Econômica, em que a sua capacidade de antecipação de um fenômeno do porte da crise econômica é colocada em xeque, estas previsões surgem como uma verdadeira temeridade, como algumas reportagens nos fazem lembrar.

A capacidade de previsão da Teoria Econômica não é um problema apenas para antecipação de crises econômicas. É um dos argumentos epistemológicos centrais da Ciência Econômica ainda hoje. Após o período de paradigma Keynesiano, que entra em crise com o chamado período de estag-flação do final da década de 70 do século passado, os economistas retomam o debate sobre como é possível fazer Ciência Econômica. Alguns autores, como Machlup, Hutchison, Knight são relidos e rediscutidos, mas o principal deles é o texto clássico de Milton Friedman, chamado The Methodology of Positive Economics.

Em uma breve apresentação deste texto, Friedman discute a necessidade da Ciência Econômica se alicerçar em pressupostos verídicos ou observáveis empiricamente, como a maximização do lucro por uma firma, por exemplo. Seu argumento é o de que não é necessário que a firma de fato saiba qual é a sua função lucro e que encontre a quantidade de produção que maximize tal lucro. À Ciência Econômica, basta a ideia do “as if“: se a Ciência Econômica ao explicar o funcionamento do mercado entender que as empresas agem “como se” maximizassem seu lucro e esta explicação permitir que se faça previsões sobre o funcionamento de mercado, o realismo dos pressupostos é irrelevante.

Ainda que tenha sido também muito criticada, esta abordagem epistemológica deu sustentação ao paradigma que permitiu à Economia superar suas divergências após o período Keynesiano. A abordagem Neo-clássica ascendente a partir dos anos 80 do século passado se apoiou nesta visão de Friedman. Note que uma consequência fundamental da argumentação de Friedman é justamente a capacidade de previsão dos modelos derivados de pressupostos não necessariamente reais: ainda que os agentes econômicos não se comportem da maneira preconizada, se o resultado for um modelo que permita aos economistas prever o comportamento destes agentes, é possível avançar no conhecimento científico. A crise econômica nos coloca diante de um problema óbvio desta linha de argumentação.

Dada a incapacidade reconhecida pelos próprios economistas de se fazer previsões acuradas sobre o futuro, mesmo sobre eventos tão grandes como a crise econômica, uma questão relevante neste momento de reflexão se coloca inevitavelmente: será mesmo possível alicerçar uma ciência em sua capacidade de realizar previsões? Ainda, é mesmo possível construir previsões precisas sobre eventos sociais, sabendo que o próprio objeto de análise é mutável e com uma velocidade cada vez maior? Mesmo considerando que a capacidade computacional não seja mais um impeditivo para a sofisticação dos modelos, eles são críveis? Estas perguntas certamente estão presentes em qualquer debate sério sobre o futuro da Ciência Econômica. É aguardar para vermos quais serão as respostas a serem dadas por toda a comunidade atual de economistas a estes questionamentos.

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