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Tive contato recentemente com os vídeos de uma palestra já não tão recente do prof. Eduardo Gianetti. Nela, o professor é provocado a discutir se há pensamento sério no Brasil. Seu discurso percorre diferentes áreas, inclusive as Ciências Sociais brasileiras, e nos provoca a considerarmos o estágio atual do estudo de Economia no Brasil. Os links para as quatro partes da palestra são os seguintes:

http://www.youtube.com/watch?v=3SkhSmReC4Q

http://www.youtube.com/watch?v=F0g3B5jAUiI

http://www.youtube.com/watch?v=LOR08e4Hg-o

http://www.youtube.com/watch?v=TYt819r_Jcg

Estimulados por esta apresentação, é possível associarmos tal discussão com a evolução econômica recente do Brasil. Particularmente, consideraremos a acentuada melhora nos indicadores de distribuição de renda nos últimos anos. O gráfico abaixo nos fornece dados concretos sobre este fenômeno.

Fonte: IBGE/Ipeadata. Elaborado pelo autor

O gráfico mostra uma queda contínua no coeficiente de Gini a partir de 2001. Ainda neste mesmo período, nota-se que a participação da renda do 1% da população mais rico praticamente permanece estável. Este movimento simultâneo reflete o que analistas chamam de surgimento de uma nova classe média no Brasil, já que ao mesmo tempo em que a distribuição de renda melhora, a parte da renda destinada ao 1% mais ricos da população permanece praticamente inalterada.

Esta situação é atribuída aos programas sociais do governo federal. Estes foram iniciados no final do segundo mandato de FHC e reorganizados e largamente ampliados no governo Lula com o Bolsa-Família como carro-chefe, o que, inclusive, lhe garantiu alta popularidade durante todo o seu governo. Estes programas seriam os responsáveis pela correção, ao menos parcial, de uma anomalia crônica da sociedade brasileira, a má distribuição de renda.

Em face à provocação se há pensamento sério no Brasil, uma questão importante é que estes programas não foram defendidos ou propostos originalmente por nenhum departamento de estudos em Economia de nenhuma universidade do país. Não há, aliás, propostas concretas de políticas públicas que alterem o quadro sócio-econômico nacional formando agendas políticas a partir dos centros de pesquisas em economia no Brasil. A própria ideia de Desenvolvimento ou de políticas que o promovam parece fora de moda nos trabalhos feitos na área da Economia. Esta situação se torna um paradoxo, pois as políticas adotadas pelo governo que levam a resultados econômicos expressivos não foram pensadas ou propostas por economistas de fora de quadros técnicos do governo. Aparentemente, a academia brasileira tem feito trabalhos apenas de avaliação das políticas e não de proposição delas. Há um sem-número de pesquisas, por exemplo, sobre o impacto do Bolsa Família, mas não há trabalhos que proponham programas como este.

A discussão sobre se há pensamento sério no Brasil também pode incorporar o próprio propósito das pesquisas realizadas. Apesar de um trabalho que é muitas vezes hermético, a pesquisa acadêmica deve ter como objetivos, por um lado, lidar com fenômenos concretos da realidade mas, por outro, refletir sobre esta realidade para que as intervenções sejam feitas com o intuito de corrigir problemas daquela mesma realidade. É possível, assim, esperar que haja proposições de políticas públicas em termos concretos que surjam destas reflexões. Não pode passar despercebido o fato de que o principal programa de política pública de mais de 8 anos de governo que ajuda a corrigir problemas importantes da economia brasileira não tenha sido proveniente de um departamento de Economia do país.

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