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Jogaram água fria na tímida perspectiva de melhora da avaliação do risco do países da zona do Euro. Quando tudo parecia melhorar, vem nova notícia incendiária, recheada de pré-estreias, de ansiedade dissimulada com fatos consumados. E o medo se alastra para aqueles que nada têm a ver diretamente com a lassidão financeira dos bancos europeus.

A agência de avaliação de risco Standard & Poors foi a terceira a reduzir a nota de avaliação do risco de crédito da França e outros parceiros, como mostra o amigável infográfico abaixo, publicado pela Folha de São Paulo, em sua edição de sábado passado, dia 15 de janeiro de 2012.

A redução da nota, tomada isoladamente, em nada altera o funcionamento dos mercados. As agências de avaliação de risco não passam por momentos de muita credibilidade. Pode ser que fique mais caro para a França se financiar. Pode ser que não. O governo francês vem efetuando uma série de reformas, especialmente na área fiscal, com o intuito de fazer uma poupança pública maior.

Mesmo assim,  indicadores publicados hoje mostram aumento de encomendas à indústria na Itália e aumento das vendas a varejo na Inglaterra e queda da inflação ao produtos na Alemanha.

Os mercados por ora não se deixaram levar pelo rebaixamento e demandam vigorosamente os títulos franceses. Resta saber se os investidores vão confiar no poder de Sarkozy de levar a cabo todas as reformas, ainda mais em ano eleitoral naquele país, quando a austeridade fiscal dos governantes tira férias, para evitar conflito de interesses com seus planos de permanência no poder.

Recentemente, vem caindo a taxa de juros de dois países importantes, encalacrados na crise e que vinham gerando preocupações quanto a uma aceleração irrecorrível do contágio da crise. Itália e Espanha conseguiram reduzir a desconfiança dos investidores. (gráfico abaixo). A Grécia já prepara o seu adeus à Zona do Euro, caso não consiga efetivar as negociações de redução de 50% a 70% de sua dívida, conforme reportagem do Valor Econômico.

A Itália fica em situação singular, dado que o país precisa financiar €440 bilhões só em 2012, mais do que os outros países da zona do euro; deste valor, €130 bilhões vencem até março.

É notável que esses desdobramentos ensaiando uma saída da crise se amparam em dois pilares: (1) a força econômica da máquina produtiva alemã que lhe confere o posto de fiadora da Zona do Euro; e (2) a formação do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (EFSF, sigla em inglês – uma exposição a respeito de sua composição e desafios pode ser acessada aqui).

O primeiro está indo tão bem que chega a impressionar, como vemos no gráfico abaixo. A taxa de juros do contrato de dívida alemã com vencimento em 3 anos bateu 0,24% ao ano. Sem mencionar o leilão de títulos alemães alemães com prazo de seis meses que, na semana passada, registrou venda a juros negativos. Por lá, tudo indo bem, com desemprego caindo e produção em bom ritmo.

É o segundo pilar que passa a preocupar, após a redução da nota da França. Como segunda maior economia do bloco e principal fiadora, junto com a Alemanha, do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, a continuidade do programa de salvamento dos países pode enfrentar um retrocesso.

Com este aumento no risco de crédito da França, torna-se mais custoso financiamento do país, tornando o fundo de estabilização europeu mais oneroso, uma vez que a nota de crédito dos países constituintes afeta a avaliação geral do Fundo. Por enquanto, esta tendência não se confirmou. Ao contrário, curiosamente, os mercados reagiram com relativa placidez ao rebaixamento. Os leilões de títulos de dívida dos países na eurozona foram bem-sucedidos, com taxas de juros cadentes. Porém, ninguém pode assegurar o que está por vir.

Colchões de amortecimento são a obsessão dos líderes europeus e o FMI já sinalizou a necessidade de adquirir mais US$ 500 bilhões para financiar possíveis crises de liquidez na região. Mais que isso, os países da Eurolândia vêm passando o chapéu dentre os países emergentes, para tentar aliviar a grande mácula que abala o velho continente, na tentativa de formar um fundo de resgate permanente, o chamado Mecanismo Europeu de Estabilidade (ESM, em inglês – uma exposição de motivos para a criação do fundo, feita pela Comunidade Europeia pode ser acessada aqui), o qual contará com uma avaliação de crédito independente das notas individuais dos países que vierem a compô-lo.

Se este cenário se confirmar, a batata quente será transmitida ao Banco Central Europeu, que faz charme mitológico em seu rigor quantitativista, apesar das mudanças que vêm se desenhando. Diz que não pode salvar os países, mas inunda os bancos europeus com liquidez para que estes, os principais detentores da dívida dos países em crise, continuem com os papeis em carteira. É basicamente, um jogo de cena. Resta saber se esta novela terminará como tragicomédia ou se persistirá como um dramalhão sem fim.

Por enquanto, a sexta-feira 13 indica que está mais para um filme de terror, em que o espectador sempre sabe o que vai acontecer, dada a obviedade da história, mas fica horrorizado quando suas expectativas são realizadas pela personagem.

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