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Bruxelas acordou em estado febril. Os três maiores sindicatos do país se uniram para trazer a cidade a um completo caos de mobilidade. Ferrovias, aeroportos, ônibus foram paralisados, obrigando o governo belga a preparar um esquema militar para receber os líderes dos 27 países da União Europeia, que se reúnem na sede da Comissão Europeia.

A reunião é praxe e encaixa-se na dieta política do bloco, sendo particularmente dominada pelos assuntos mais prementes: renegociação da dívida grega, pacto fiscal interno à zona do Euro, regulação financeira e crescimento econômico. A apresentação do presidente da Comissão Europeia, José Barroso, pode ser encontrada aqui.

Basicamente, os europeus querem voltar a crescer, como mostra o fluxograma de causas e efeitos em rede entre baixa competitividade, parco crescimento e produtividade estagnada, dívidas soberanas dos governos e das instituições financeiras.

O raciocínio é simples e recorro à metáfora outrora utilizada aqui neste blog. Imaginando que a Europa é um bloco homogêneo (vamos abstrair, inicialmente, das diferenças intestinas à região), qual um lar de família profundamente endividada, desanimada pelo futuro nublado que se apresenta, perdida em meio às brigas para saber quem é o culpado pelo imbroglio em que se encontram.

O dinheiro acabou e os “amigos” se travestiram em agiotas altamente sensíveis às promessas de melhoria oriundas do porta-voz da família, que insiste em que seus “filhos” e sua “mulher” gastam demais, e se entorpeceram em um estilo de vida demasiado oneroso.

O líder pede paciência aos parceiros de negócio: é reunião de família. Hora de colocar os pingos no “i’s”. O chefe da família alega que já está tomando medidas. Vai colocar todos em regime de trabalho, mesmo que não saiba bem como. Diz que se investirá nos estudos dos filhos mais promissores, agora sob forte fiscalização de como gastam o seu tempo e suas energias. Estipula regras e punições, projetos de agrupamento dos esforços e metas para a família sair da pindaíba; tudo isso emoldurado pelos mais altos valores da austeridade econômica e da disciplina democrática.

A renda da família precisa aumentar, para pagar as dívidas acumuladas ao longo dos recentes tempos difíceis e para, também, gastar com os investimentos que propiciarão um futuro melhor para todos, com mais tranquilidade, a despeito do esforço adicional empreendido na conquista do bens que pretendem consumir. Os indicadores recentes mostram boas perspectivas.

Certamente, a Europa precisa encontrar um caminho mais respeitável para sustentar seu custoso estilo de vida. Tem vivido das facilidades herdadas de um império econômico e militar que não vigora desde o fim da primeira guerra mundial (1914-1918). O impasse vivido pelo bloco assume contornos literários. Na era informacional, a narrativa se desenrola em tempo real, como nos oferece o jornal Financial Times, com uma cobertura antológica das presentes discussões da Comissão Europeia.

Comédia, farsa ou tragédia? A julgar pelo vilão grego de passos claudicantes, podemos esperar uma resolução mitológica que, como tal, não busca ser real, apenas servir de metáfora para a instrução de discursos belos, porém ocos de ação. É no campo do crescimento econômico que a Europa vai encontrar o seu caminho. A questão é, como dentro de qualquer família, quem vai trabalhar em quê e como serão divididos os ganhos obtidos.

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