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Nos últimos dois dias, a presidente Dilma visitou a ilha de Cuba e acabou decepcionando alguns setores nacionais que esperavam, da presidente, uma atitude mais incisiva em relação às violações aos direitos humanos perpetradas pelo governo cubano, principalmente em relação à liberdade de expressão.

Essa expectativa foi criada, pois essa seria primeira viagem internacional na qual a presidente poderia explicitar de forma mais clara a principal mudança na política externa brasileira em relação ao seu antecessor: a condenação mais firme a regimes e governantes violadores dos direitos humanos.

Conforme ficou claro pelas declarações da presidente durante a visita, essa mudança não será tão profunda como apontada por muitos analistas de política externa, demonstrando que, mesmo em relação aos direitos humanos ocorrerão poucas mudanças na atuação internacional do País, marca tradicional de nossa política exterior.

Dilma, assim como seu antecessor, recorreu ao tradicional princípio da diplomacia brasileira de não interferência nos assuntos internos de qualquer país para justificar a pouca presença – ou quase ausência – da questão humanitária em sua agenda, reafirmando que a mudança na postura brasileira em relação à questão estaria restrita aos fóruns multilaterais. Talvez isso possa deixar claro que o Brasil continuará privilegiando em suas relações bilaterais as questões de cunho comercial e não os ideais, algo bastante criticado no governo anterior.

Uma análise da comitiva que acompanhou a presidente em sua viagem bem como de sua agenda e dos acordos assinados deixam claro essa preferência pela agenda comercial. Na comitiva presidencial estavam presentes os ministros das Relações Exteriores, Antônio Patriota, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Fernando Pimentel, da Saúde, Antônio Padilha, e o assessor da presidência para Relações Internacionais, Marco Aurélio Garcia. A ausência da ministra dos Direitos Humanos demonstra que a questão humanitária não faria parte da agenda presidencial, apesar de sua assessoria alegar a ministra não teria ido devido a uma viagem pré-agendada ao Haiti, país que a presidente visitará no dia do hoje, o que, portanto, não justificaria a sua ausência na comitiva presidencial em Cuba.

O tom comercial da viagem ficou por conta da visita da presidente à obra de ampliação do Porto de Muriel, executada, em parceria com a estatal cubada, pela empresa brasileira Odebrecht e que conta com o financiamento do BNDES de cerca de 80% da obra, o que totaliza US$ 683 milhões. Além disso, foi anunciado, no dia em que a presidente chegou a Cuba, que o mesmo grupo passaria a atuar em um dos principais setores da economia cubana: a produção de açúcar por meio da administração de uma usina açucareira em Cienfuegos, região central do país.

Também foram assinados acordos de cooperação técnica, científica e tecnológica, nas áreas de agricultura, segurança alimentar, saúde e produção de medicamentos.

Essas iniciativas demonstram que a presidente dará continuidade à chamada cooperação Sul-Sul, contando, com isso, com os investimentos do BNDES para contribuir para a internacionalização das empresas brasileiras e, ao mesmo tempo, angariar apoio e presença no cenário internacional.

A visita, portanto, acabou por negar as análises mais apressadas acerca da política externa “dilmista” de que ocorreria uma mudança mais profunda em relação à atitude brasileira em direitos humanos e que estes estariam sobrepostos a interesses comerciais. O que vimos em Cuba é exatamente o contrário, uma relativização da questão humanitária em nome de interesses comerciais e políticos. Os direitos humanos são deixados para os fóruns multilaterais, nos quais sabemos que ocorrem poucas medidas efetivas em relação aos violadores, deixando o caminho livre para as relações comerciais. É o triunfo do pragmatismo na política externa brasileira, mais uma vez!

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