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“Só o político pode salvar o economista”. Eis o diapasão conceitual subjacente a todas as análises que este paulistano, nascido no Cambuci, oferece-nos há muitos anos como colunista de diversos meios de comunicação. Haverá verdade nisto que Delfim nos sugere?

Sua bandeira acadêmica defende modelos econômicos (matemáticos inclusive) que reflitam a realidade observada, sempre considerando-se as dimensões histórica e política. Sua angústia para com os desenvolvimentos recentes da teoria econômica deriva do abuso empreendido, segundo ele, por economistas “ingênuos”, que se deslumbram com a simetria vigente no mundo das ideias matemáticas, presidido por regras simples, muito embora dotadas de aparência complicada e, portanto, intimidadora.

Em reportagem especial no suplemento de fim de semana do jornal Valor Econômico (edição de 10 de fevereiro de 2012), a jornalista Cláudia Safatle nos presenteia com uma rápida biografia intelectual de Delfim, o qual certamente aprendeu a se reinventar, mostrando uma controversa flexibilidade política e acadêmica. A conversa avança sobre vários domínios do saber, revelando a erudição de Delfim e seu ainda vigoroso traquejo intelectual.

Em um excerto da reportagem Delfim, quase que displicentemente, emite uma máxima que tem organizado suas declarações mais recentes.

O bordão é o seguinte: “quando a urna exagera na distribuição, o mercado corrige; quando o mercado exagera nos lucros, a urna corrige“. Vejamos.

A economia cuida do sustento humano, organizando a produção de uma maneira a satisfazer as necessidades humanas em suas dimensões física, social e psíquica. Quanto mais se produz, mais se pode distribuir, muito embora nem todos tenham acesso a tudo o que desejam, enquanto muitos obtêm muito mais do que o necessário. Aqui reside, simplificadamente, o problema da distribuição da renda.

No entanto, se o que é produzido é distribuído igualmente, haveria incentivos para que aqueles mais produtivos continuarem produzindo tanto quanto antes? Trata-se do antigo dilema acumulação vs. distribuição.

Delfim ficou conhecido pela expressão – que ele nega ter dito – “precisamos fazer o bolo crescer para, depois, dividi-lo”, uma frase facilmente aceita pelo bom senso, mas polêmica quando atribuída a uma autoridade em meio aos primeiros anos de um regime ditatorial.

Dentro deste novo contexto lógico, a questão fica mais clara, mais dinâmica e, por conseguinte, mais complexa, por confrontar entre si racionalidade econômica e preceitos democráticos, em um jogo de pesos e contrapesos, de mútuas correções.

Sempre que um governante eleito pela “URNA” tender para o populismo distributivo, por meio programas de renda e de assistencialismo social, o “MERCADO” aparece e pressiona o governante a certa austeridade fiscal. Como? Exigindo taxas de juros maiores para os empréstimos que o mercado lhe concederá.

Inversamente, quando um governante se mostrar muito favorável aos interesses do “MERCADO”, deixando de lado os aspectos distributivos, como políticas de promoção social, de distribuição de renda, de educação e de saúde, há a possibilidade de retirar tal governante por meio da “URNA”, deixando clara a mensagem de que um equilíbrio saudável foi rompido.

Trata-se, portanto, de um quadro analítico interessante para se analisar a dinâmica da política econômica nos países. É interessante notar que Barack Obama sobe aos palanques nestas eleições tendo como principal palavra de ordem a necessidade de elevação da carga tributária para os mais ricos. Motivo: aumentar os gastos sociais e melhorar o sistema de saúde.

Os eleitores norte-americanos darão uma importante mensagem em alguns meses quanto ao equilíbrio entre “eficiência econômica” (acumulação da riqueza) e “equidade social” (valores sociais e filosóficos da democracia).

Voltaremos a este quadro analítico delfiniano, analisando outros temas. É salutar!

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