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Em importante passagem da mitologia que envolve a figura de Pitágoras, o mais brilhante dos vultos da Antiga Grécia, o filósofo pede a seu escravo que entregue uma moeda a um de seus discípulos, quando este lhe pergunta para que serve o triângulo em que Pitágoras trabalhava naquele momento. Teria dito o filósofo a seu pupilo que ele era do tipo de ser humano que espera um lucro por tudo aquilo que faz.

A passagem é marcante por revelar a histórica tensão (talvez, antropológica) entre o saber filosófico, que persegue a verdade, e o saber técnico, que procura resolver problemas práticos, geralmente associados a alguma relação custo/benefício.

Em palestra na FEA-USP, o economista João Sayad disse que “educação não serve para nada”. Após o assombro tomar conta da plateia, o professor ratificou sua declaração, dizendo que a educação é um fim em si mesmo, isto é, prescinde de motivações práticas. Bem, ao menos, assim deveria ser.

Contudo, fica a questão: como separar a educação da mera instrução técnica? Como conciliar as aceleradas demandas por profissionais qualificados com o imperativo social da busca de emancipação individual por meio da incorporação, irradiação e absorção de valores sociais e culturais, promovidos pela vivência universitária?

O Brasil está crescendo em ritmo acelerado e seu protagonismo internacional, muito embora manco de vários atributos, vem exigindo da população a superação do velho complexo de inferioridade intelectual que historicamente nos assola.

Neste sentido, cumpre questionar em que medida nosso sistema universitário está perdendo em solidez o que ganha em praticidade, em subserviência aos anseios mais imediatos da economia e do mercado de trabalho. Isto imaginando que a praticidade é efetiva, o que não parece ser avalizado pelo profundo déficit de profissionais qualificados no mercado de trabalho, em áreas específicas como engenharia e tecnologia da informação.

As tensões do desenvolvimento econômico se fazem notar com evidência na relação entre conhecimento e técnica. Resta saber para onde queremos ir: (1) formar profissionais excelentes em executar tarefas; ou (2) cidadãos magníficos em formular novos processos, com base em pensamento teórico de qualidade e dotado de ferramentais que excedem as demandas mais imediatas da moda que orienta o consumo de massas.

Trata-se de uma situação que o atual presidente do IPEA, Marcio Pochmann, chamou de encruzilhada brasileira entre dois modelos de desenvolvimento: o Brasil da FAMA (fazenda, mineração e maquiladoras) ou o Brasil do VACO (valor agregado e conhecimento).

No primeiro, persistimos como refletores de valores substantivos e de impulsos estrangeiros, mercê de modismos e de turbulências de outras nações.

No segundo, procuramos nosso próprio caminho, presidimos ao processo de escolha do quê queremos como nação, das potências internas a desenlaçar; enfim, da nação soberana que desejamos. Neste, valeremos muito mais do que sugerirá nosso peso. E não estaremos à venda, pois nossos cidadãos pensarão em mais do que o lucro imediato; objetivarão um benefício intertemporal, forjando a herança de um país acolhedor às futuras gerações.

Finalmente, o conhecimento se consolidará em alavanca da emancipação individual e social, na medida em que se tornará líder dos rumos do mercado, revestindo-o de instituições sólidas e direcionadoras ao bem comum.

Será esta apenas mais uma fantasia desenvolvimentista?

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