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                                      Em homenagem a Samantha Maneschi e Leslye Revely, pelo amor que destinam à arte.

“A arte não reproduz o que vemos. Ela nos faz ver”. A frase é do pintor e poeta suíço, naturalizado alemão, Paul Klee (1879-1940) e defende a liberdade que todo indivíduo possui de analisar toda e qualquer manifestação de arte.

A arte busca, essencialmente, chamar a atenção para a dimensão perene da humanidade, em que  é o ser humano quem governa seu destino, em vez de ser guiado por forças irresistíveis e estranhas, às quais se sujeita irrefletidamente. Para tanto, enfatiza, com cores fortes e emoções afloradas, como, no dizer de Hamlet, “os sofrimentos do coração” e “os golpes infinitos que constituem a natural herança da carne” por vezes nos desviam do viver pleno de sentido.

O atormentado príncipe shakespeareano se indaga, na famosa passagem do “ser ou não ser, eis a questão“: “Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fardo sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes?”

Minha pouco qualificada opinião sugere que a segunda opção nos é mais construtiva. E aqui reside o papel da arte: aparamentar a nossa percepção da realidade para que busquemos transformá-la. Quando a arte se exime de impressionar, para efeito de despertar do letárgico sono a consciência entorpecida, torna-se comercial, reveste-se de outra roupagem: transmuta-se em entretenimento.

Falando de uma de suas formas de expressão, o cinema é uma tecnologia inovadora, pelo potencial difusor que traz consigo. Como qualquer instrumento a serviço da humanidade, pode ser usado para construir, bem como para destruir, o sentido da existência.

Sua ambivalência arte-entretenimento é alvo de inúmeras teses na área acadêmica, e portanto não vou deter-me nisso. No entanto, pergunto: como pode o cinema contribuir para nossa compreensão da economia? Ela vem ganhando uma atenção maior dos cineastas. É bem verdade que jamais saiu de cena. Por se entrelaçar ao cotidiano da existência humana, a coisa econômica é, por vezes, protagonista e, por outras, coadjuvante.

São inúmeras as iniciativas e, certamente, este post será insuficiente para listá-las exaustivamente. Começaria por indicar o filme “A felicidade não se compra” (It´s a wonderful life – 1946, dirigido por Frank Capra) que fala da vida de um banqueiro de uma pequena cidade norte-americana, em meio à Grande Depressão.

Outro imperdível é o famoso “O ovo da serpente” (1977), de Ingmar Bergman, que retrata a vida na Alemanha do entreguerras, em que as sementes do nazismo eram espalhadas por todo o terreno social.

Mais recentemente, com o desenvolvimento da finança mundializada, no dizer da escola francesa da regulação, as crises financeiras são protagonistas em diversos filmes e documentários.

Michael Douglas vive Gordon Gekko, cuja personalidade é retratada em toda a sua complexidade e sofisticação em Wall Street – Poder e cobiça (1987). O filme de Oliver Stone ganhou notoriedade pela crueza do espírito empresarial de Gekko, que foi consagrada na frase em que o banqueiro reabilita um valor humano: “A ganância é boa” (Greed is good). Foi filmado no encalço da crise financeira vivida pelos EUA em 1987, a qual resultou de desregramentos no mercado de hipotecas norte-americano e que teve como efeito principal o contágio da economia japonesa que, desde então, vive no calabouço do crescimento econômico, sem vitalidade econômica até os dias de hoje.

Gordon Gekko é reeditado por Oliver Stone em Wall Street 2 – o dinheiro nunca dorme (2010), no qual Jacob “Jake” Moore (Shia LaBeouf) é um novato corretor da Bolsa de Valores norte-americana, que está namorando Winnie (Carey Mulligan), a filha de Gordon Gekko (Michael Douglas).

Mais apagado que o primeiro da série, este enfatiza os conflitos interpessoais em detrimento da questão da ganância, relegada a segundo plano. Tem, porém, o mérito de ser contemporâneo à crise financeira de 2008, o que lhe confere um ar panfletário interessante.

A novidade agora é que Hollywood parece buscar alguma forma de catarse com a filmagem de Insider Trading, em que o mesmo Gordon Gekko junta forças com o FBI para combater os crimes financeiros. O filme chegará a estas bandas em breve. Vejamos o quão convincente ele será!

O mais recente trabalho de ficção sobre a crise de 2008 foi Margin Call – O dia antes do fim, dirigido pelo estreante J.C. Chandor, em que é devassada toda a complexidade interpessoal dos principais líderes de uma instituição financeira nas 24 horas que separam o banco de uma possível falência.

Neste filme, Jeremy Irons encarna John Tuld (talvez em referência remota ao ex-presidente do banco Lehman Brothers – Richard Fuld), presidente do Conselho de Administração de um grande banco de investimentos. Sua eloquência e seu pragmatismo são cortantes, mais pela convicção com que defende posições darwinistas cruas, do que pelo conteúdo mesmo delas.

Em um trecho interessantíssimo, Tuld explica que o sistema financeiro, enfim, o dinheiro “é tudo inventado; uma forma de impedir que a gente se mate buscando um prato de comida”. O filme é uma obra densa e muito convincente.

Agora, aos documentários.

Inicialmente, indico dois associados ao problema das grandes corporações e suas estratégias para ampliar os lucros o mais rapidamente possível, em detrimento, muitas vezes, do bem-estar da sociedade. São eles: Corporation e Enron – os mais espertos da sala.

O terceiro é um provocador Michael Moore tentando expor as contradições que emanam da crise financeira de 2008. O diretor tenta atingir alguma profundidade, mas fica limitado pela escassez de especialistas que se voluntariam a lhe conceder entrevistas. Todavia, é interessante por retratar a violência da crise sobre o cotidiano dos norte-americanos.

Destaca-se a cena em que Moore passa em torno do prédio de um grande banco de investimentos a fita amarela utilizada pela polícia para delimitar a cena de um crime, bem como quando vai a um dos bancos com um carro-forte e solicita ao segurança que lhe traga o dinheiro subtraído aos cofres públicos (operação de salvamento do Banco Central americano – Fed), para que ele, Michael Moore, tenha sua parte ressarcida.

O premiado “Trabalho Interno” (Inside Job – 2010), de Charles Ferguson, faz uma radiografia da crise financeira de 2008. Talvez fosse mais preciso dizer que o documentarista empreende uma autópsia institucional do mercado financeiro norte-americano, revelando o caráter promíscuo das relações entre as redes acadêmicas de economistas, os bancos de investimento, as agências de rating e o governo norte-americano.

Uma análise da pertinência do filme é oferecida por Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, intitulado “Inside Job”, documentário imperdível, em coluna do Valor Econômico (link não restrito).

 Boa excursão cinematográfica a todos.

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