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Ao longo de um curso de graduação em Economia, ainda mais durante um período em que são sentidos efeitos de uma crise econômica das maiores da história, os estudantes tendem a se questionar sobre a validade dos conteúdos que são ensinados a eles. Neste sentido, há dois prismas a serem considerados que estão no cerne desta questão. O primeiro está relacionado às questões metodológicas da própria Ciência Econômica. O segundo vincula-se à maneira como os conteúdos são tratados dentro da sala de aula.

A Economia, apesar de ciência social, desde muito cedo adota uma perspectiva metodológica que a aproxima das Ciências Naturais. Isto se torna claro em dois momentos: com a defesa de que é possível se distanciar do objeto de forma a tratá-lo exogenamente às disposições dos pesquisadores e com a busca por similaridades em diversos eventos particulares no qual determinado fenômeno ocorre. Ambos aspectos autorizam os economistas a montarem bancos de dados extensos com certas unidades de análise que se aproximam apenas sob a ótica dos fenômenos particulares de interesse, o que despreza variações idiossincráticas de cada caso. E, mais do que isso, esta adoção metodológica reforça o pressuposto de que os fenômenos econômicos estão distantes de qualquer parcialidade que o pesquisados possa ter. A metodologia quantitativa superaria idiossincrasias do pesquisador. Cabe dizer que este distanciamento encontra limites quando os pesquisadores utilizam a mesma base de dados e as mesmas teorias para fazerem projeções em situações que estes são os próprios atores que tomam as decisões projetadas. O exemplo claro é o atual sistema financeiro internacional, em que os bancos e demais agentes adotam perspectivas teóricas semelhantes para tomarem decisões nas quais eles são os próprios atores a influenciarem os preços dos bens que transacionam.

Com relação à forma de ensino de Economia, a utilização de manuais para ensino das disciplinas teóricas acaba por transmitir uma ideia ao aluno de que o conhecimento está totalmente consolidado em torno dos assuntos tratados e de que não há perspectivas teóricas distintas a cerca dos fenômenos de interesse. Um manual serve, por princípio, para mostrar como determinado objeto opera, sem que haja dúvidas ou questionamentos do que porquê isto ocorre. Ademais, o manual ainda não traz múltiplas vertentes teóricas em torno de um mesmo tema, assumindo como visão adequada apenas uma única perspectiva.

Entendo que estas duas concepções estão no centro das dificuldades que as escolas de economia enfrentam na transmissão do conhecimento. Estas dificuldades ainda causariam, a meu ver, ao menos parcialmente, parte das frustrações que os alunos demonstram ao longo do curso. Mas cabe um aviso importante: há vida para além dos manuais. A sua busca dependerá muito da disposição daqueles que querem continuar a estudar esta matéria. A Economia precisa que o conhecimento se avance, inclusive, através da reflexão sobre as questões metodológicas apontadas acima. E ressalto: vale a pena o esforço!

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