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Essa semana, um aluno em sala de aula me pediu para fazer uma análise acerca do vídeo Kony 2012. Devido ao tempo de aula, não pude responder a sua pergunta da forma como gostaria, mas seu questionamento não me saiu da cabeça, por isso o post de hoje.

Para aqueles que, porventura, não estejam familiarizados com o assunto, o vídeo Kony 2012 tornou-se o maior “viral” da história da internet com mais de 100 milhões de visualizações nos últimos dias. No documentário, os fundadores contam, com uma série de clichês emocionais, a história de uma criança soldado recrutada pelo Exército de Resistência ao Senhor (LRA, Lord’s Resistance Army), comandado por Joseph Kony. O vídeo propõe a tornar conhecido o rosto do líder guerrilheiro para que, com isso, seja encaminhado para julgamento no Tribunal Penal Internacional, além de pedir doações para ajuda humanitária e treinamento do exército ugandense.

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Devido à grande repercussão, com comentários de celebridades como Rihanna, George Clooney e Angelina Jolie, o assunto gerou polêmica, com críticas e argumentos diversos. O objetivo desse post é desmistificar alguns argumentos e apontar algumas reflexões que o vídeo pode causar para os analistas e interessados nas Relações Internacionais. Vamos a eles:

1. O vídeo seria uma maneira por meio da qual a ONG estaria ajudando o governo americano e sua indústria do petróleo a conseguir acesso ao petróleo ugandense, em uma repetição do que, segundo alguns, teria sido a motivação para a guerra contra o Iraque

Comentário: essa afirmação carece de qualquer comprovação empírica, pois não existe relação concreta entre a ONG e o governo norte-americano ou com qualquer empresa petrolífera. Se o objetivo fosse realmente esse, a estratégia seria outra. Uganda é um país, infelizmente, pouco expressivo no cenário internacional. Para os EUA, seria mais benéfico não dar publicidade ao assunto e negociar diretamente com o governo ugandense que faria parte do grupo de nações africanas governadas por líderes fracos, fortemente suscetíveis às pressões de grandes potências, como os EUA.

2. O vídeo demonstraria o poder da opinião pública internacional para pressionar as autoridades internacionais a agir contra os violadores de direitos humanos.

Comentário: Esse argumento seria, em parte, verdadeiro. Teóricos de Relações Internacionais vem há bastante tempo discutindo o chamado “efeito CNN” que teria contribuído, por exemplo, para a atuação dos EUA na Somália no ano de 1992, que acabou com a morte de 10 mariners norte-americanos e uma certa cautela, por parte dos EUA, em agir militarmente em conflitos humanitários na África.

No caso de Kony 2012, o governo norte-americano apenas reiterou seus esforços de ajuda à Uganda, como o envio, no ano passado de 100 soldados, para ajudar na repressão ao LRA, não havendo, portanto, nenhuma mudança na postura do governo Obama em relação à questão, já que esta não estaria no centro dos interesses nacionais do país. Alguns especialistas em segurança argumentam que ao tornar Kony uma figura pública, o vídeo poderia contribuir para uma nova escalada do conflito, pois o guerrilheiro poderia sentir-se mais forte e recrutar mais crianças para lutar contra os estrangeiros, tornando sua luta uma questão de libertação da África das mãos das nações estrangeiras e o trabalho das tropas norte-americana mais difícil. Além disso, é bom deixar claro que o conflito em Uganda não existe mais, pois o LRA saiu do país e seus líderes encontram-se refugiados na República Centro-Africana e na República Democrática do Congo e o vídeo pode ajudar a reabrir antigas feridas.

O vídeo Kony 2012 também possui um discurso bastante perigoso de que a África não seria capaz de resolver sozinha seus problemas, necessitando para isso da ajuda e boa vontade das nações estrangeiras e de organizações internacionais. A história já demonstrou que as intervenções externas pouco contribuíram para a solução dos problemas africanos, sendo necessário, portanto, às instituições internacionais e á comunidade internacional, apoiar os africanos a encontrarem soluções próprias para seus problemas que são muito diferentes daqueles já enfrentados pelo Ocidente, mesmo nos tempos mais difíceis. Isso não quer dizer dar liberdade aos violadores dos direitos humanos, mas sim dar oportunidade aos cidadãos africanos de decidirem seu próprio futuro.

Kony seria apenas mais um exemplo, dentre vários outros no continente africano, sendo, portanto, necessária uma atuação bem mais incisiva e coordenada do que alguns soldados estrangeiros para treinar os exércitos locais e a prisão de um ex-guerrilheiro para mudar essa situação. Portanto, fica claro que a sociedade civil ainda possui uma capacidade de mobilização e, principalmente, de atuação concreta em casos tão complexos quanto esses.

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