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Apesar de vivermos na era da soberania do consumidor, são cada vez mais raras as ocasiões em que nos dedicamos a um cuidadoso exame de nossas motivações. Correndo o risco de parecer determinista, diria que parte importante de nossas decisões é tomada por influência do ambiente social (moda, mídia etc.) combinada a certa inércia moral. Mas, deve-se perguntar: esse comportamento trará o que almejamos?

É inevitável vir à mente o mito de Ícaro que, com asas artificiais feitas de cera, lança-se a um voo sob o céu, mesmo tendo sido advertido por seu pai de que não voasse muito alto. Ícaro assume rota ascendente e sem saber mensurar a segurança de sua ousadia, aproxima-se demais do Sol, cujos raios viriam a derreter suas asas. O mito nos ensina, dentre outras coisas, como a ambição pode causar sofrimento, se não for temperada pela sabedoria.

Vejo, diariamente, pessoas disparando em direção a inúmeros objetivos, repartindo suas vidas em compartimentos estanques, mirando sonhos de grandeza, alçando voos altíssimos, ao menos em suas mentes. Estão sempre atrasadas, sempre estafadas, como se uma força externa as movesse à sua revelia. Parecem perseguir uma estrela cadente: quanto mais correm, mais longe dela ficam.

Aparentam ter dificuldades em unificar os objetivos de sua vida, dadas as inúmeras tarefas que concorrem pela sua atenção. Parecem optar pelos prazeres fáceis, por não encontrarem a satisfação no que acham que devem fazer. Abdicam, enfim, da construção de um legado, atrofiando sua capacidade criativa.

Perseguimos a afluência material, o atendimento pleno de nossas necessidades físicas e psicossociais. De maneira geral, gastamos boa parte dos dias ocupados na defesa desses dois objetivos. Vale uma pergunta: não estaria o rabo (necessidades) abanando o cachorro (ser humano)?

Isso ocorre basicamente porque, por invigilância nossa, tornamos necessidade o que era, originalmente, apenas um desejo; ou seja, promovemos certos hábitos acessórios à categoria de hábitos essenciais à vida. E ao fazê-lo, de senhores passamos a servos, esforçando-nos para alimentar desejos de grandeza que apenas reclamarão mais investimento futuro de energia, num comportamento circular sem fim. O sucesso perseguido pode assumir tantas formas diferentes que a ambição que motiva sua busca pode se tornar motivo de grande apreensão.

Em interessante artigo, André Lara Resende discute a questão da ambição e sua difícil adequação aos parâmetros de felicidade. Com base nas pesquisas de Daniel Kahneman, psicólogo ganhador do Nobel de Economia em 2002, Lara Resende propõe observarmos nossa vida a partir de dois prismas: (1) a experiência vivida e (2) a satisfação com a vida.

Daniel Kahneman - Ganhador do Prêmio Nobel de Economia - 2002

A primeira se refere à ausência de dor física, da boa saúde, do convívio com a família e como amigos. A segunda é função dos objetivos alcançados. As pesquisas indicam que a felicidade é uma combinação complexa entre “sentimentos vividos” e a percepção que se tem desses sentimentos.

O que aparenta ser um meio certeiro para a felicidade – a ambição – é, segundo estes estudos, uma faca de dois gumes, pois “exponencia, para o bem ou para o mal, o grau de satisfação com a vida”; ao concorrer com a experiência vivida da riqueza afetiva, reduz o bem-estar do indivíduo. Arremata Lara Resende: “Como ensina a sabedoria budista, o sofrimento está associado à inquietação do desejo difuso, ao ato de ansiar. Desejar provoca ansiedade e reduz o bem-estar vivido. Alcançar o desejado traz satisfação com a vida. São coisas distintas”.

O foco na “satisfação com a vida” em detrimento da “experiência vivida” pode estar de alguma forma relacionada ao individualismo que se alastra, uma vez que a experiência vivida está associada à qualidade das esferas de sociabilidade, do espaço público.

Quando nossas atividades são exercidas de forma maquinal, por serem entendidas como passaporte para uma “vida melhor”, o resultado pode ser um desencanto para com a vida, uma sensação de pobreza existencial, por não sabermos exatamente o que é esta “vida melhor”.

Ao viver como formigas, que acumulam mais do que necessitam em incessante esforço, esvaziamos nossa felicidade, reduzindo-a a mero bem-estar material.

Confundimos, assim, sucesso com realização pessoal, racionalizando nossa ambição à custa da oportunidade de realização pessoal, isto é, de nossa liberdade restringida. Parafraseando Niesztche,  não se pode considerar livre uma pessoa que, tirando as oito horas de sono, não tenha metade do seu dia destinado à contemplação e à realização de si mesma. Portanto, diria o atormentado filósofo, em impulso socrático: “Torna-te quem tu és!”

Por fim, apesar de tanto conhecimento acumulado, parece que desaprendemos a gostar de nós mesmos. É bem provável que esteja errado na generalidade de minha análise. Espero que esteja errado por completo. Se assim for, estaremos no equilíbrio entre experiência vivida e satisfação com a vida. Que assim seja!

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