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Desde a popularização dos computadores pessoais até a expansão da internet, o homem vê diante de seus olhos uma enorme transformação em curso em sua maneira de interagir com o mundo que o cerca. Esse avanço tecnológico que ainda trás promessas muito maiores do que mudanças concretas que implementa possui algumas considerações importantes, que vão desde as concepções teóricas que o cercam até as nossas próprias limitações cognitivas.

A Economia não possui uma boa teoria para explicar avanços tecnológicos. Desde Smith, passando por Marx, até os modelos de crescimento de Solow, entende-se que os avanços da tecnologia são os motores do progresso material que estão no cerne das explicações econômicas. Os argumentos teóricos em torno do tema variam de acordo com a escola de pensamento adotada: divisão do trabalho que conduz a aumentos de produtividade; indução pelo Estado da indústria inicial para promover condições de competição internacional; incentivos à inovação promovida pelos empreendedores; manutenção das expectativas elevadas para estimular novos investimentos, e por aí a fora. A tecnologia mesmo estando no âmago do crescimento econômico ainda não possui uma teoria única e definitiva que dê conta de sua compreensão e muito menos de sua previsão.

Porém, há, como dito, um outro componente importante neste contexto que não está equacionado em nenhuma dessas perspectivas e que o avanço da tecnologia portátil tem nos mostrado. Trata-se do limite da cognição humana. Para ilustrar este fato, vamos considerar o espaço da sala de aula como exemplo. Ainda que haja avanços na utilização de novas tecnologias em sala de aula, e inúmeras promessas sobre seus impactos no aprendizado, avaliar o formato da sala de aula ao longo do tempo é bastante representativo desta limitação cognitiva. Consideremos a ilustração abaixo. Ela se trata de uma sala de aula na Universidade de Paris, fundada no século XII.

Aula da Universidade de Paris durante a Idade Média

Agora, vamos comparar esta imagem acima com a de uma sala de aula de uma moderna universidade americana nos dias de hoje. Olhem a imagem a seguir.

Sala de aula contemporânea em uma universidade americana

Há muitas semelhanças nas duas imagens: os alunos permanecem sentados a ouvir um professor. Este deve transmitir seus conhecimentos aos primeiros que terão condições de tomar notas desta exposição. Há espaços determinados para cada um dos grupos e, inclusive, que permitem aos alunos apoiar seus cadernos ou equivalentes para que o processo de acompanhamento da exposição se dê de maneira adequada. Mas há também importantes diferenças: a sala de aula atual parece ser um espaço muito maior, em que há um número bem maior de alunos em uma mesma sala. Pode-se também supor que iluminação da sala e a sua acústica sejam mais adequadas à dinâmica de uma aula expositiva.

Com relação ao que nos interessa aqui, as mudanças de tecnologia evidentes foram a introdução da lousa e giz, de um projetor e as mudanças nos materiais para a tomada de nota pelos alunos. Tornou-se um processo com menos dificuldades, talvez, com relação à transmissão pelo professor e à compilação do conteúdo pelos discentes.

Mas devemos refletir sobre isto, pois há fatores importantes envolvidos aqui: estamos comparando um processo em uma área fundamental da vida moderna, a educação. E observamos os espaços em que a aquisição do conhecimento se dá em dois momentos históricos bastante distantes: o primeiro durante a Idade Média e o segundo em momento atual. Aproximadamente, distam oito séculos! Por que são assim tão semelhantes?

Pode-se argumentar que o fator mais relevante neste contexto é a capacidade de cognição humana, a forma como aprendemos e armazenamos informações sobre o mundo. A utilização de um tablet em sala de aula, por exemplo, seria o equivalente a modernizar o caderno, mas ainda assim a lógica “professor expositor / aluno tomador de nota” permanecerá essencialmente a mesma. Nós temos um fluxo de aprendizado, de retenção do que nos é dito e do que observamos. Nosso cérebro depende de vários processos químicos para absorver novas informações que variam de acordo com nossa idade e com o ambiente, entre outros fatores. Estamos caminhando para conhecer estes processos, mas ainda não está claro como funcionam.

Ainda que a tecnologia evolua a passos largos, nossa capacidade de apreensão dos fenômenos do mundo não é ilimitada na mesma proporção destes avanços. Neste sentido, a iniciativa da Google, conforme reportagem publicada na Folha, de tornar os sites de busca mais próximos da maneira com a qual os humanos interagem parecem ser o caminho mais adequado. Ao final das contas, agora, parece que finalmente entendemos que somos nós mesmos os principais limitadores deste avanço.

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