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Na semana passada o Núcleo de Pesquisa FECAP divulgou um Boletim Econômico com a compilação de uma série de indicadores macroeconômicos que são usados pela equipe do Núcleo para acompanhar o humor do setor de comércio varejista. O estudo destes indicadores nos permite fazer algumas relações e provocações que podem ser úteis para o nosso aprendizado acerca da interdependência das variáveis macroeconômicas no mundo real, ou não.

Por exemplo, o Boletim mostra que o ano de 2011 e o início de 2012 foi um período bastante ruim para a Produção Industrial no Brasil (queda de 3,23% em todo o período) e em São Paulo (queda superior a 6% no período).

Estes dados certamente explicam o protesto, organizado pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e por outros sindicatos patronais e de trabalhadores ligados à indústria, contra o que eles estão chamando de processo de “desindustrialização” do Brasil. Segundo os protestantes, o elevado nível dos juros no país, o real valorizado e a falta de incentivos fiscais estão entre os principais motivos do péssimo desempenho recente da indústria nacional.

Os dados acima também nos ajudam a entender o pacote de incentivos anunciado pelo Governo Federal um dia antes do protesto da Fiesp. O pacote contém medidas tributárias (da ordem de R$ 10 bilhões) que visam estimular o crescimento da indústria no país. Vale destacar que a Fiesp já anunciou sua crença de que tais medidas são insuficientes para garantir o crescimento do setor.

Por outro lado, como também mostra o Boletim Econômico do Núcleo, no mesmo período o setor de comércio varejista esteve extremamente aquecido tanto no Brasil quanto em São Paulo.

(Uma análise detalhada dos dados de comércio do gráfico acima pode ser encontrada no relatório elaborado pelo Núcleo de Conjuntura Econômica da Fecap – Necon)

Tais indicadores me levam ao primeiro questionamento: se a indústria nacional está “definhando”, de onde está vindo o fôlego para o crescimento da venda e do consumo verificado no setor de comércio?

Bom, a oferta deve vir de produtos não industrializados e, principalmente, importados. E o consumo?

O Boletim Econômico mostra que o mercado de trabalho teve um desempenho até que satisfatório ao longo de 2011, apesar da piora no desemprego no início deste ano.

Mas quando olhamos a evolução da massa salarial dos trabalhadores brasileiros é que a coisa fica mais clara. No período compreendido no gráfico, a massa salarial nas mãos dos trabalhadores cresceu significativos 6,5% (este dado não é apresentado no Boletim Econômico – fica a dica para o pessoal do Núcleo!).

Ok. Então a indústria vai mal por conta dos juros elevados e do real valorizado, enquanto o comércio vai bem por conta da renda dos trabalhadores e do real valorizado. E os dados de inadimplência, jogam mais luz ou escuridão nesta discussão?

Pergunto isso porque de acordo com o Banco Central (conforme apresenta o Boletim Econômico do Núcleo de Pesquisa) a inadimplência dos empréstimos concedidos às pessoas físicas vem crescendo fortemente.

Embora a inadimplência ainda não tenha sido capaz de frear as vendas do comércio (talvez por conta do contínuo aumento da massa salarial – veja o segundo e o quarto gráfico deste post), parece que ela já vem reduzindo o ritmo de crescimento do saldo total de crédito concedido pelas instituições financeiras.

Então a indústria vai mal, a inadimplência está subindo e a concessão de crédito desacelerando… política ótima? Baixar juros! Mas não é isso que o Banco Central vem fazendo desde o segundo semestre do ano passado?

E desde quando o repasse da queda da Selic acontece de imediato e na mesma proporção para os juros cobrados das empresas e dos consumidores tomadores de empréstimos no mercado financeiro?

A taxa de juros média mensal (pré-fixada) das operações de crédito com recursos livres para pessoas físicas e jurídicas (apresentada acima) indica que o custo do crédito não responde tão bem aos movimentos da Selic. Não por acaso o Governo Federal esta tentado usar bancos públicos para estimular a queda dos juros aos tomadores finais.

Mas ai surge mais um problema (que talvez seja TODO o problema quando falamos de uma economia cuja política monetária é fundamentalmente baseada no regime de meta inflacionária). A queda nos juros aumenta a concessão de crédito, aquece a economia, aumenta o consumo (principalmente quando aliado ao aumento da renda) e se a oferta não for capaz de responder à altura a corda vai estourar na… inflação!

Inflação que o mercado já prevê que ficará acima da meta definida pelo governo para os próximos dois anos. Segundo o relatório Focus do Banco Central (de 30/03), as projeções do mercado para o IPCA em 2012 são de 5,27% e para 2013 maiores ainda (a meta é de 4,5%).

Juro (taxa Selic) é a principal ferramenta do Banco Central para cumprir a meta de inflação, pois crédito caro deprime consumo e desaquece a economia, controlando a escalada dos preços. Só que juros altos dificultam o desempenho da indústria nacional, tanto por deprimir o consumo quanto o investimento.

Logo não baixar os juros pode comprometer seriamente a capacidade da indústria de inverter a tendência do seu desempenho recente? Parece que sim.

Mas baixar ainda mais os juros (tal como querem, e sempre quiseram e sempre irão querer os industriais), tendo em vista o já bastante aquecido consumo, pode nos levar a um descontrole da inflação? O risco é alto. E nós brasileiros já aprendemos a abominar a ideia de descontrole da inflação. Ou será que estamos esquecendo o nosso passado?

E o câmbio valorizado? Xíííí, esta variável certamente triplicaria este texto… melhor deixar esta face da moeda para outra oportunidade…

(Agradeço ao Thiago Messias e a Gabriela Golin que foram os responsáveis pela construção do Boletim Econômico. O Boletim Econômico do Núcleo de Pesquisa FECAP pode ser obtido no site da FECAP).

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