Tags

, , , , , ,

Atualmente, tudo que nos parece racional e lógico é considerado como a forma adequada de lidar com qualquer problema ou situação. O extremo da racionalização sobre os fenômenos do mundo se dá na atividade científica. Produto do Iluminismo, a atividade científica assume o papel de salvaguardar a capacidade humana em explicar racionalmente o mundo. Como cita Chalmers:

“Nos tempos modernos, a ciência é altamente considerada. Aparentemente há uma crença amplamente aceita de que há algo de especial a respeito da ciência e de seus métodos. A atribuição do termo ‘científico’ a alguma afirmação (…) é feita de um modo que pretende implicar algum tipo de mérito especial de confiabilidade.”

Chalmers, A. O que é ciência afinal? Ed. Brasiliense, 2011, p.16.

 Se há muitas virtudes neste tipo de procedimento, o que levou a humanidade a níveis de bem estar inimagináveis poucos séculos atrás, há limites evidentes. Como o próprio Chalmers cita:

“Simplesmente não existe método que possibilite às teorias científicas serem provadas verdadeiras ou mesmo provavelmente verdadeiras. (…) Uma reação à percepção de que teorias científicas não podem ser conclusivamente provadas ou desaprovadas (…) é desistir de uma vez da ideia de que a ciência é uma atividade racional. (…) [De acordo com Feyerbend], a ciência deve parte de sua alta estima ao fato de ser vista como a religião moderna, desempenhando um papel similar ao que desempenhou o cristianismo na Europa em eras antigas” (p. 18-9)

Esta posição de destaque que a ciência ocupa proporciona um verdadeiro festival de mau usos de argumentos científicos em meios não-científicos. É muito comum, por exemplo, lermos em jornais que “a Ciência Econômica diz que…” como forma de legitimar ou não alguma decisão de um governo ou que a “Ciência comprova que…” como se fosse possível á ciência provar alguma coisa.

Porém, se perde a dimensão da própria dificuldade que a ciência possui de encontrar respostas seguras sobre os problemas que busca identificar. Para citar um outro exemplo: em sua coluna de ontem da Folha.com, Hélio Schwartsman publicou um texto no qual a ciência médica encontra formas de mostrar que a acupuntura não é um método adequado de tratamento para diversas doenças. A despeito de nossa capacidade em discutir os aspectos técnicos dos procedimentos científicos adotados, chama atenção o fato de que nessa mesma coluna está dito que a mesma ciência anos atrás entendia que a própria acupuntura trazia benefícios à população. Ainda que autor diga que a própria ciência pode por seus próprios meios se reinventar e rever suas posições, o que nos garante de que a medicina não voltará mais uma vez a rever suas posições nas próximas décadas e dizer que a acupuntura é um método eficiente de tratamento clínico?

Nos casos relacionados à Ciência Econômica, torna-se ainda mais evidente tal uso inadequado do rótulo “ciência” a afirmações que são ainda controversas ou carecem de comprovação empírica. Por exemplo, o debate sobre a independência do Banco Central. O seu argumento essencial depende de que a hipótese sobre a neutralidade da moeda se confirme. Há economistas sérios que duvidam desta hipótese, o que tornaria o próprio debate sobre a independência do Bacen irrelevante. Porém, há outros vários economistas que se esquecem desta posição divergente e vão a público defender que tal prática estaria de acordo com a “ciência econômica”. De qual ciência efetivamente será que ele fala?

Por isto, é sempre importante ter em mente que ainda que a ciência seja talvez a nossa melhor forma de compreender o mundo que nos cerca, ela certamente não está imune a erros, a contradições, a imperfeições, e principalmente à dúvida. Esta situação não seria problemática se não utilizássemos argumentos científicos em nosso cotidiano, em nossas conversas, em nossas decisões. Pior ainda é quando nossa informação científica é adquirida em segunda mão, via um jornal, por exemplo. Nestes momentos, perdemos a dimensão da imprecisão que existe em um real argumento científico simplesmente por ser científico. É preciso realmente ter muito cuidado!

Anúncios