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Na semana passada, o presidente boliviano, Evo Morales, rescindiu o contrato de construção dos trechos 1 e 3 da rodovia que ligaria os departamentos de Beni e Cochabamba, de responsabilidade da construtora brasileira OAS. Além disso, o governo boliviano também descartou a participação da construtora brasileira na execução da construção do trecho 2.

O episódio relembra o ocorrido com a construtora Odebrecht no Equador, em que o presidente equatoriano expulsou a empresa brasileira responsável pela construção da hidrelétrica de São Francisco, ato revertido no de 2010, após intensas negociações.

Em ambos os casos, as obras contavam com financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e estavam em países considerados chaves para a diplomacia brasileira, os chamados países em desenvolvimento.

O post de hoje será apenas um esforço para demonstrar que esses casos são parte de uma estratégia Brasil de expansão de suas exportações de obras de infraestrutura que, em grande parte, coincidem com a ênfase da política exterior governamental nas chamadas relações Sul-Sul. O tema é muito amplo e merece atenção mais detalhada, algo que estou fazendo em minha tese de doutorado.

Ademais, essa correlação não é tão automática quanto esse post pode sugerir, existindo outras variáveis e questões interessantes como motivações de caráter organizacional – abordadas pelas teorias da administração sobre internacionalização de empresas – as teorias econômicas relativas ao investimento nacional direto. Portanto, procuro hoje apenas trazer indícios dessa relação. Vamos aos dados!

Atualmente, as obras de infraestrutura no exterior estão concentradas em cinco empresas (Andrade Gutierrez, Camargo Côrrea, OAS, Odebrecht e Queiroz Galvão). Essas construtoras estão envolvidas em 102 obras em 31 países diferentes, conforme a seguinte distribuição:

Elaboração própria a partir dos sites das construtoras brasileiras.

Conforme apontado anteriormente, boa parte dessas obras conta com o financiamento do BNDES, cujos desembolsos, durante o governo Lula, aumentaram 629%, passando de US$ 120,78 milhões para US$ 759,53 milhões, apontando que o banco tornou-se um importante financiador das exportações de bens e serviços de engenharia e construção.

Elaboração própria. Fonte: BNDES

Além do aumento nos desembolsos, o aumento das exportações das empresas do setor também pode ser verificado por meio de outros dados. Segundo dados do Banco Central, ao lado das exportações de serviços de tecnologia de informação, os serviços de construção e engenharia estão entre os que mais crescem.

O IBD em infra-estrutura e construção cresceu de US$ 670 milhões em 2007, primeiro ano da pesquisa, para US$ 892 milhões em 2010, um crescimento de 33,13%[1] (BANCO CENTRAL, 2010), enquanto as exportações de serviços de construção e engenharia cresceram de US$ 1,8 bilhão em 2003 para US$ 5,7 bilhões em 2010 (MDIC, 2010, p. 13), crescendo, portanto, 208%[2].

Esses números demonstram o crescimento da atuação internacional do setor, impulsionado pela atuação do governo federal em duas frentes. A primeira delas ocorre por meio dos setores envolvidos na promoção comercial. Além dos órgãos citados anteriormente, cabe apontar a participação do ex-presidente Lula nesse processo que, em suas diversas viagens presidenciais à América Latina e à África, visitou várias obras desenvolvidas por empreiteiras brasileiras além levar em sua comitiva diversos empresários do setor.

Outra frente é a aprovação de financiamentos e a concessão de crédito oficial para projetos de reconstrução nacional, como no caso de Angola. Ademais, no caso das obras realizadas na América Latina, vale ressaltar que muitas delas enquadram-se no projeto de integração física regional, o IIRSA.

As negociações desse tipo de exportações, normalmente, ocorrem entre os governos, pois essas vendas, em sua maioria, são feitas em um pacote que, geralmente, inclui o financiamento do BNDES que, em contrapartida exige que a maior parte dos produtos e serviços para a obra seja brasileira, o que desenvolveria não apenas as empreiteiras, mas também a cadeia produtiva envolvida nessas obras, como cimento e ferragens. Ademais, essas exportações são interessantes para o país, pois possuem maior valor agregado além de ser um setor altamente intensivo em mão-de-obra, o que contribuiria para a redução do desemprego no Brasil.

Para as empresas essa relação com o governo também é benéfica, já que, por meio da promoção comercial reduz-se os custos das empresas na prospecção de novos mercados, enquanto que os recursos do BNDES reduziriam os riscos de operar em países conhecidos pela instabilidade política e econômica.

Esses indícios, portanto, demonstram que a política externa de um país não é só feita por meio de encontros e acordos governamentais, mas também que as empresas nacionais possuem um papel relevante na estratégia de inserção internacional de um país, pois o estreitamento de relações econômicas pode contribuir para o fortalecimento da posição de um país no cenário internacional.


[1] Esses dados não dariam conta do investimento brasileiro direto como um todo, pois este, muitas vezes, é feito a partir de reinvestimento de lucros auferidos no exterior, que as empresas não internalizam e que, portanto, não fariam parte da estatística.

[2] As exportações de serviços de construção e engenharia contabilizam apenas os projetos de curta duração.

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