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Ao longo desses breves anos no ofício de professor, sempre me perguntam o que é a economia. E adicionam: “por favor, responda de forma que eu possa entender”. Tentarei neste artigo honrar a simplicidade, sem desmerecer a precisão.

A economia estuda a maneira como as pessoas ganham a vida dentro dos limites da organização social da qual participam. Ganhar a vida implica conceder esforço produtivo na direção que a sociedade deseja para, em troca, participar da distribuição do esforço produtivo acumulado de todos os cidadãos. A figura abaixo ilustra esse esquema.

Quem puder oferecer os esforços mais desejados, mais dinheiro receberá. Quem não tiver talentos que lhe diferenciem dos outros, estará fadado a concorrer com vários outros detentores de faculdades medianas, recebendo menos.

É claro que a valoração desses esforços depende de aspectos como o nível de desenvolvimento tecnológico, o padrão cultural e intelectual, o grau de organização política, as relações de propriedade, a história social e econômica; numa palavra, das instituições que regem aquele agrupamento social. Esse esquema analítico foi formulado por Robert Heilbroner, no primeiro capítulo de seu simpático trabalho A Construção da Sociedade Econômica.

Estas instituições estão geralmente associadas a algum grande rótulo, o qual nomeia algum grande princípio organizador. No era atual, o capitalismo. Em poucas palavras: a liberdade de inciativa de se ganhar a vida por meio da venda de um bem em troca de lucro, isto é, um ganho que exceda os gastos para manutenção do capital.

O problema dessa organização é que nem todos tem capital, isto é, dinheiro somado à capacidade de empreendimento, o que lhes reserva apenas a possibilidade de oferecer sua força de trabalho. É com base nessa divisão essencial que Marx veiculou suas ideias quanto à necessidade de organizar conscientemente o capitalismo, de maneira a impedir que as pessoas padecessem sob o império daqueles que dominavam o capital. Porém, não quero agora entrar nessa querela secular.

O que se pode adiantar é que, com base em certa dose de ressentimento social, alega-se que o capitalismo é o pior sistema de organização econômica… à exceção de todos os outros anteriores. Ou seja, foi o arranjo que mais desenlaçou o potencial humano para a criação e para a produção.

Dadas as inúmeras manifestações de capitalismo e todas as suas variantes, direi apenas que se trata de um regime de livre iniciativa regido por instituições que buscam compatibilizar entre si, com maior ou menor êxito, interesses individuais e coletivos, com a reabilitação moral do interesse e da ambição como valor substantivo regente da mentalidade média. O gráfico abaixo expõe a verdade por trás dessa intuição histórica.

O mundo passa a crescer aceleradamente após a revolução industrial, ao final do século XVIII. É interessante notar como o ser humano se libertou da “maldição de Malthus”, a qual sentenciava a humanidade à eterna luta contra a escassez de alimentos, pelo simples fato de que a população cresceria a taxas maiores do que a produção, submetendo a sociedade a uma eterna alternância entre prosperidade e penúria materiais.

O desenvolvimento tecnológico nos livrou desta maldição. Ao menos, na média, isto é, quando se toma a chamada renda per capita, ou a renda total dividida pela população total. É fato indiscutível que uma parcela ainda substancial da população mundial não se beneficiou deste avanço geral, sofrendo desnutrição e enfermidades de fácil prevenção.

Não são todas as sociedades que oferecem a seus cidadãos a oportunidade de ganhar a sua vida exercitando plenamente os seus talentos. Há pessoas talentosas para as artes sutis da pintura e da música que, dado o atraso relativo na cultura artística de sua sociedade, tem pouco incentivo a viver profissionalmente como um pintor ou um músico. Como já disse Paulinho da Viola, no samba “14 anos”: “sambista não tem valor, nesta terra de doutor”.

Portanto, uma segunda parte a essa reflexão seria: se o capitalismo depende do lucro esperado que resulta do oferecimento de certos bens e serviços à sociedade, o que acontece com aqueles que não têm talentos que lhes garantam um rendimento mínimo para uma boa vida? Eis a questão da distribuição, da justiça social. O sistema é eficiente em termos de produção. Porém, será ele uma sistema que garante uma boa qualidade de vida à longevidade que a tecnologia nos proporciona?

Boa reflexão!

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