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No dia 26 de dezembro do ano passado, escrevi o post “A volta da tecnocracia?”, questionando a interpretação corrente, à época, de que a Europa estaria sendo tomada por uma onda de ascensão de líderes tecnocratas. Com o passar do tempo, percebe-se que isso não ocorreu e o fenômeno é outro.

As eleições francesas, com a derrota de Sarkozy – fortemente identificado com o projeto de austeridade como solução para a crise continental – e a ascensão de François Hollande, cuja campanha política baseou-se, exatamente, em contrariar o projeto de austeridade capitaneado pelos líderes da França e da Alemanha mostraram que as análises daquele momento não estavam corretas.

Mais do que a ascensão de um estilo de governar ou de uma vertente política, as eleições europeias vem demonstrando o descontentamento da população com os caminhos tomados pelos líderes europeus para solucionar a crise. Independente de ser de direita ou esquerda, o que os eleitores europeus fizeram foi mudar os governantes ou os partidos que estavam no poder. Os europeus estariam fazendo tentativas, ou seja, se determinado governante não trouxe soluções eficazes para a crise, o caminho seria a troca para verificar se esse novo governante, com ideias diferentes, solucione o que o seu antecessor deixou por resolver.

Outro elemento que começa a ficar claro é que boa parte dos europeus não está satisfeita apenas com o pacote de austeridade desenvolvido, principalmente, pela chanceler alemã. Esses eleitores também querem medidas concretas que incentivem o crescimento econômico, algo percebido e utilizado como bandeira pelo vencedor das eleições francesas.

Dessa maneira, François Hollande poderia firmar-se como uma liderança de uma coalizão pelo crescimento cujo apoio, dentro da União Europeia, tenderia a crescer, já que países importantes como Espanha e Reino Unido voltaram à recessão.

Ademais, esse realidade começa a “bater na porta” da Alemanha, cuja chanceler sempre contou com ampla margem de apoio ao seu programa de austeridade para a Europa. Com a derrota de seu partido em uma eleição regional, Angela Merkel já começa a sinalizar possíveis mudanças, acrescentando ao seu discurso em defesa da austeridade a questão do crescimento econômico que, para aprovar o pacto fiscal da União Europeia, necessita reformar a constituição alemã, o que requer 2/3 nas duas casas do Parlamento Alemão.

O ministro da Fazenda alemão também demonstrou essa possível mudança ao apontar que a Alemanha poderia relativizar a questão da inflação, podendo aceitar níveis um pouco mais altos que os atuais em nome do crescimento da Europa.

O que parece em jogo, portanto, são dois projetos distintos para a Europa: um baseado apenas na austeridade e outro que promova o crescimento. Até o presente momento, a segunda vertente vem derrotando ou, ao menos, provocando mudanças na segunda vertente.

Conforme dito por Andrew Moravicsik, em texto na Foreign Affairs deste mês, a Europa ainda não conseguiu atingir seu principal objetivo: a convergência. Os fatos atuais, portanto, seriam uma excelente oportunidade para a Europa trabalhar para atingir tal objetivo, distribuindo de forma mais justa os custos da convergência.

Portanto, deve-se voltar, exatamente, ao que levou à criação da União Europeia – uma experiência até hoje inédita nas Relações Internacionais e que vai muito além da economia – a associação entre interesse nacional e interesse europeu. Essas ideias divergentes podem representar, exatamente, a oportunidade para essa convergência, o que dependerá de líderes políticos competentes capazes de implementar soluções para um problema novo, já que a UE é a vanguarda do processo de integração regional vivido pelo mundo nos anos recentes.

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