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O governo federal brasileiro, alegando a necessidade do estímulo à economia, resolveu reduzir alíquotas de IPI em diversos setores. A imprensa noticiou largamente a redução de impostos do setor automotivo e a partir daí, surgiram diversas outras notícias sobre as motivações desta decisão e seus desdobramentos. Há, por exemplo, argumentos como o do prof. Ricardo Abramovay, sobre os problemas de meio ambiente relacionados a utilização de automóveis e o equívoco do incentivo a este setor.

Nesta discussão, chama atenção o fato de que o presidente da Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) afirma, na mesma notícia indicada acima, que a indústria de veículos está com “elevados estoques”. Ora, todas as indústrias potencialmente sofrem com retrocessos de demanda e isto se reflete no acúmulo de estoques, o que influenciará o nível de investimento do setor para o próximo período, como os modelos econômicos bem retratam. Faz parte da dinâmica de mercado e deveria ser encarado como um sinal de alerta ao setor em suas decisões para os próximos anos. Entretanto, aparentemente, este não é o jogo que está sendo jogado e surgem várias questões decorrentes desta escolha do governo federal. Uma das principais é: o governo ao reduzir o IPI para a compra de automóveis está somente beneficiando um setor politicamente importante da economia brasileira que atravessa um momento de dificuldade ou há razões econômicas para que este setor seja o escolhido para ser estimulado?

Como uma resposta a essa pergunta é algo que está para além de um texto em um blog, pode-se aqui trazer indícios sobre o que de fato acontece. Para isto, lança-se mão de uma análise bastante difundida na Economia Regional, com origem no Sistema de Contas Nacional, chamada Análise via Matriz Insumo-Produto (M I-P), desenvolvida originalmente por Wassily Leontief. Simplificadamente, esta matriz organiza a economia em diferentes setores de atividade e apresenta a origem dos insumos utilizados em cada um destes setores em determinado período. Cada setor é representando em uma linha, definindo-a como a origem dos produtos utilizados por este e pelos demais setores nas colunas da mesma matriz. Reflete-se nela por exemplo de quais setores da economia o setor de Agropecuária adquiriu insumos para a sua produção (coluna) e qual o destino dado para os bens gerados por ele (linha): se para consumo intermediário ou consumo das famílias, para investimento, exportação, etc. Esta representação resume as relações estabelecidas entre os diferentes setores de uma economia, inclusive no que tange ao número de trabalhadores empregados direta e indiretamente e aos salários gerados nestes postos de trabalho. Com estas informações, é possível ponderar a importância relativa de cada setor de atividade de uma economia. Alguns são importantes porque uma vez estimulados possuem alto impacto sobre seus fornecedores de insumos. Outros, ao contrário, possuem elevado impacto sobre seus consumidores. Ainda, alguns outros tem bastante peso no estímulo aos salários e aos postos de trabalho que geram. A Matriz Insumo-Produto possibilita que se avalie estas relações entre os diferentes setores da Economia, ainda que existam, como em todo modelo, certas limitações.

O setor automobilístico é identificado na M I-P apenas quando se divide a economia em 56 setores de atividade. Para cada um desses, pode-se comparar o seu impacto sobre seus fornecedores e sobre seus consumidores. O primeiro toma por base o chamado vínculo para trás e o segundo, o vínculo para frente. O raciocínio empregado aqui busca de identificar se o setor automobilístico apresenta características técnicas superiores a dos demais setores no sentido de justificar um incentivo sobre ele através da propagação sobre o conjunto da economia, seja para frente, seja para trás. Assim, serão avaliados os valores normalizados, ou seja, comparados com a média geral da economia: valores superiores a 1 indicam estarem acima da média; valores abaixo de 1 indicam estarem abaixo da média. O gráfico abaixo apresenta o primeiro conjunto destes dados:

Na linha azul do gráfico acima observam-se os valores para os links para trás de cada um dos 56 setores de atividade da economia brasileira para 2009, últimos dados disponibilizados pelo IBGE. Entende-se que estes valores normalizados são considerados como o Poder de Dispersão daquele setor. Na linha vermelha do gráfico constam os valores para os links para frente de cada setor. Estes representam a Sensibilidade de Dispersão daqueles. Como pode ser visto, há alguns setores, como a Construção Civil, o Comércio e o setor de Alimentos e Bebidas com elevados valores para o poder de dispersão. Já para os valores de sensibilidade de dispersão são em geral menores, mas os maiores valores são atingidos pelos setores de Produtos Químicos, Outros da Indústria Extrativa, de Resina e o de Petróleo. No mesmo gráfico, estão assinalado com quadrados os valores para o setor nomeado “Automóveis, Camionetas e Utilitários” em ambas as linhas. Este é o setor de interesse neste trabalho.

O poder de dispersão observado neste setor é igual a 1,19. Este valor informa que um incentivo de uma unidade monetária na demanda deste setor afeta os demais setores da economia em magnitude 19% maior do que a média dos demais setores. Isto o coloca como o 8º setor com maior efeito neste quesito. Já a sensibilidade de dispersão do setor é igual a 0,74, o que sinaliza um valor 26% inferior à média dos demais setores. Chama atenção o fato de que este valor é o 50º dentre os 56 setores da economia brasileira.

Além destes dados, outras informações importantes são aquelas relacionadas aos impactos nos salários do setor e no emprego. Novamente, ao normalizar estes dados frente a unidade, é possível comparar o incentivo decorrente do incremento em uma unidade monetária na demanda deste setor sobre os salários e sobre os empregos diretos e indiretos frente à média do total da economia. Estes valores estão na tabela a seguir:

O setor de Automóveis apresenta um impacto sobre salário diretos e indiretos 66% menor do que a média e sobre empregos, 88% menor. Estes valores o colocam respectivamente na 32ª e na 37ª posição dentre os 56 setores da economia brasileira. Seria possível argumentar que a comparação adequada seria apenas com os setores da própria indústria, pois poderia ter sido este o universo da escolha do governo. Neste caso, a posição do ranking pelo poder de dispersão do setor de automóveis é a 4ª, perdendo apenas para a Construção Civil, Alimentos e Bebidas e Refino de Petróleo. Já com relação à sensibilidade de dispersão, o setor automotivo ocupa a penúltima colocação dentre os 39 setores associados à indústria, sendo superior apenas ao setor de Produtos de Fumo. Ainda, com relação ao seu impacto em salários e empregos diretos e indiretos, sua posição mesmo na indústria não é elevada: ocupa respectivamente a 16ª e a 21ª.

Este conjunto de dados sugere que a importância do setor automotivo não parece justificar a sua escolha como setor chave para receber incentivos especiais do governo federal. Há setores que afetam de maneira mais decisiva a economia brasileira como um todo. Estas informações trazidas aqui, ainda que não sejam suficientes para uma avaliação definitiva, apontam para a hipótese de que a decisão do governo federal não foi uma decisão técnica mas que envolve outros fatores. Parece que o real impacto do setor automobilístico sobre a economia brasileira se dá via governo federal.

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