Tags

, , , ,

Sempre que apresento aos meus alunos alguma teoria econômica através de uma formulação um pouco mais rigorosa (com definição de hipóteses, axiomas, etc.) digo para eles que este esforço para compreender a engrenagem que sustenta uma teoria como ciência, e não como um simples “achismo” ou senso comum, pode diferenciá-los na vida profissional ou até mesmo numa mesa de bar. Não só porque muitas vezes o conhecimento científico indica que o senso comum está equivocado, mas também porque o domínio das ferramentas de análise da ciência lhes permite identificar se determinada afirmação não é apenas “verdade” baseada em experiências pessoais ou ideologia.

Seja na política, no mundo corporativo ou em outras áreas, muitas vezes os debates sobre questões sérias e pertinentes acabam virando uma verdadeira “discussão de mesa de bar”. Não que eu não goste de reunir os amigos no boteco para debater efusivamente os mais variados temas, pelo contrário. Mas uso este termo para me referir aos debates recheados de argumentos especulativos e desfocados, exatamente contrários ao que a metodologia científica prega. Acho que todo mundo já teve a oportunidade de participar ou ver uma discussão onde uma ou mais partes tentavam impor suas ideias através muito mais do tom usado ou da “desqualificação” do oponente do que pelo rigor dos seus argumentos. Há inclusive os que defendem isso como um dom. Eu tendo a acreditar que – a menos que se esteja realmente numa mesa de bar entre amigos – tais estratégias representam um desperdício e um desserviço para a busca das respostas de fato relevantes.

Neste sentido, esta semana fomos “contemplados” com um episódio que exemplifica bem como uma questão extremamente relevante para a ciência econômica pode se transformar numa discussão tendenciosa e distorcida, que, apesar de ter sido divertida, acabou negligenciando o que realmente importa. Houve excessos dos dois lados e embora cada um possa eleger seu vencedor, o certo é que o tema central perdeu.

Aos leitores d’O Barômetro que quiserem se aventurar na leitura dos extensos textos deste debate, sugiro quatro específicos (a esta altura já tem um monte de textos sobre o assunto na blogosfera, mas estes são os que deram origem a todos os outros).

O primeiro texto é uma reportagem do jornal O Globo destacando que um estudo feito por professores da PUC-Rio apontou que o Bolsa Família, ao reduzir a desigualdade de renda, é responsável por parte da queda na criminalidade verificada em São Paulo nas últimas décadas (leia aqui).

O segundo texto é do jornalista Reinaldo Azevedo criticando agressivamente o estudo dos professores da PUC-Rio (é aqui que o debate começa).

O terceiro texto é uma resposta do Professor João Manoel Pinho de Mello, um dos autores do estudo, ao Reinaldo Azevedo (embora a crítica inicial tenha sido desnecessariamente agressiva e mal fundamentada, a resposta do Prof. João Manoel não pegou leve).

O quarto texto é a resposta do jornalista ao professor (a coisa esquentou de vez).

Por fim, segue o link para o tão citado artigo acadêmico.

Anúncios