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Um admirado professor de matemática meu sempre nos advertia, em meio às suas derivações e deduções algébricas: “Senhores, a vida não é fácil”. Tudo que desejamos impõe algum custo para sua obtenção. Seja antes ou depois de obter o que buscamos.

Ser rico é comumente comparado com ter dinheiro. Porém, dinheiro é apenas uma forma de riqueza. Dinheiro na mão á o potencial de mobilizar esforço dos outros para atender objetivos próprios. Novamente, é potencial. Apenas se realiza quando é utilizado. E a realização depende, por exemplo, do quê se deseja comprar. Aqui o velho exemplo de se ter um milhão de dólares em pleno deserto do Saara. Repetindo, riqueza é potencial. É preciso atender às condições da realidade para que seja realizada.

Hoje gostaria de propor ao leitor uma reflexão sobre a relação entre riqueza e produção, isto é, entre potencial e realização, para que possamos refletir sobre a questão da imensa jazida de petróleo em plataforma marítima, recentemente descoberta em nossas terras, a chamada Pré-Sal.

Ressalto, sem me alongar em, a visível contradição de nossa esperança estar depositada exatamente no petróleo, bem no momento em que sediamos o maior evento de debate ambiental, a Rio+20. É preciso fazer força para enxergar que a contradição é apenas aparente – ou seja, é apenas uma possibilidade.

O leitor já deve ter notado que ser rico não significa ser feliz. Fica a questão: como usar o potencial que temos para construir uma vida melhor? Como enxergar para além do horizonte de alguns anos, para cuidar das gerações futuras que ocuparão essas tão abençoadas terras tupiniquins?

Acredito que a nossa forma de lidar com a nossa riqueza reflete nossos valores, ou seja, aquilo que priorizamos, assim como aquilo que tememos. Por isso, a discussão sobre a Pré-Sal é uma oportunidade rica para explorarmos nossos recursos a favor de nossos objetivos.

Peço a paciência do leitor. O assunto é denso e exige alguma extensão para dissipar a névoa que o encobre. Tentarei resumir ao máximo a questão para, ao menos, provocar a vontade de conhecer mais.

Recentemente, o esforço de consolidação e diversificação da matriz energética nacional encontrou novo impulso com a descoberta de uma jazida de petróleo em águas profundas, a Pré-Sal. Entendida como riqueza econômica nacional, a reserva petrolífera desafia a política econômica com a questão de qual rumo destinar aos recursos auferidos com a sua exploração.

Formou-se uma a “sólida” certeza em torno das potencialidades que se abrem com a exploração da reserva. Há várias questões que merecem atenção, e as decisões tomadas dirão, em última instância, se a reserva é uma “dádiva” ou uma “maldição”.

Resumidamente, colocam-se, a seguir, apenas algumas das inúmeras questões, para iniciarmos uma reflexão:

1- Extrair ou não extrair? O ouro negro depende de seu preço no mercado internacional. Não importa se ele está, agora, alto ou baixo. Aqui vale pesquisar sobre a Regra de Hotelling. A questão envolve uma incerteza dramática que importuna qualquer pessoa que deseja ganhar dinheiro no mercado financeiro: se eu vender agora, eu maximizo o meu ganho? E se, logo depois de vender, o preço do ativo subir? Perdi dinheiro. Por outro lado, se eu vender agora, posso me livrar de um desastre, caso o preço do ativo caia. Porém, como saber o que vai acontecer com o preço do petróleo? Após extrair, armazeno esperando que o preço suba, ou vendo agora, em caso de o preço cair?                                                                                        

2- Exploração: é preciso considerar os elevados custos de extração. É preciso muita tecnologia para se retirar o petróleo. Além disso, há um preço mínimo além do qual o preço do petróleo não pode cair. Se isso acontecer, a receita não cobre os custos e, portanto, não se extrai mais; além disso, é de elevada complexidade o desafio de fazer com que as empresas extraiam de forma a não exaurir rapidamente a reserva. Trata-se da parte da regulação da extração, assunto nada óbvio.

3- Dissipação da Renda: uma vez extraída, supondo resolvidos todos os problemas relacionados à extração, o que fazer com os valores? Uma parte vai para as empresas nacionais e estrangeiras que extraem. A outra vai para o governo. O que o governo deve fazer com os recursos? Usar para estabilização econômica, caso ocorram crises? Aplicar as rendas do petróleo em educação e saúde? E como ficam os estados que contêm geograficamente as reservas: eles devem ser privilegiados, com mais renda do que os outros estados?

Espero que com essa rápida passagem sobre o tema o leitor se interesse por conhecer mais. Está envolvido aqui o princípio da justiça inter-geracional. É simples: como as gerações futuras não poderão se aproveitar de uma riqueza que podem explorar hoje, a adequada destinação dessa riqueza é o investimento em políticas ambientais, educacionais e de saúde, para que as gerações futuras encontrem um país, no mínimo, tão bom quanto o que temos hoje.

Em outros termos, devemos planejar agora a compensação de nossos netos e bisnetos pelo usufruto de uma riqueza que a eles também pertence. Porém, fica a pergunta: teremos a disciplina, a perseverança e a vontade política de abdicarmos de nossos interesses imediatos para plantar árvores à sombra das quais jamais sentaremos? Isso é, para mim, uma democracia real.

Crescer, pessoal ou coletivamente, envolve esforço, mudança, perseverança e, por isso, algum grau de dor. É na decidida perseverança em se livrar da crisálida, que a borboleta infla as suas asas.

As reais mudanças exigem tempo, planejamento e, acima de tudo, disciplina e vigilância, para não cair nas tentações das promessas fáceis e nas ilusões de que “se ainda não deu certo, é por que não acabou”.

A discussão sobre a Pré-Sal nos remete ao problema da educação dos jovens. Trata-se da maior riqueza que uma sociedade pode ter, uma vez que, em cada jovem, reside um manancial de potencialidades, de talentos, de competências que precisam ser desenvolvidas.

Porém, se o jovem não encontrar oportunidade para isso, teremos sempre incríveis cientistas em potencial desejando ser jogadores de futebol; fantásticos professores em potencial almejando ser cantores de algum estilo musical da moda. Nada contra essas atividades, que fique claro. No entanto, como será que estamos utilizando a riqueza humana de nosso país?

Para explorá-la a favor da sociedade, é preciso enfrentar os custos e começar a gastar agora (não só dinheiro, mas tempo e dedicação) para perceber os retornos daqui a décadas. Como sempre diz meu caro professor de matemática, meus caros e minhas caras, a vida não é fácil!

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