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Em recente visita ao Brasil, o presidente norte-americano Barack Obama reverteu as históricas expectativas que se guardam com relação ao Brasil, dizendo que havíamos deixado de ser o país do futuro. “O futuro chegou”, disse Obama.

Ainda que lisonjeiro, o afago diplomático reflete mais o demérito das economias desenvolvidas, em estagnação ou em crise, do que nossos fundamentos econômicos. Um crescimento de 3% ao ano certamente é interessante quando o observador está em recessão. Mas o que isso diz sobre nós?

A teoria do crescimento econômico inaugurada por Adam Smith, entortada por David Ricardo, nublada por Karl Marx, instabilizada por Schumpeter e sua “destruição criativa”, ganhou simplicidade e rigor matemático com Robert Solow.

De forma direta, a teoria neoclássica do crescimento nos diz que a produção de um país depende, fundamentalmente, dos fatores de produção disponíveis, tais como terras, reservas naturais, capital e trabalho. A tecnologia direciona o processo, em sua dimensão técnica, aumentando a produtividade do trabalho, garantindo maior quantidade de bens e serviços para o consumo dos cidadãos.

Como já foi dito em outro artigo pelo Prof. Glauco Peres, todo o desenrolar da produção está envolvido pelas instituições, as quais ditam o que se produzirá, como se produzirá e quem é que ficará com a maior parte das remunerações e, portanto, do consumo daquilo que foi produzido.

Em resumo, quanto melhores as nossas instituições, quanto melhor a tecnologia que usamos, quanto mais qualificado o trabalhador (e quanto mais trabalhadores), quanto mais recursos naturais e mais terras tivermos, maior será o crescimento econômico.

Assim, se a quantidade de trabalhadores é importante para a produção, é crucial olharmos para a demografia, pois é o movimento da população que nos dirá se teremos mais ou menos problemas no futuro, já que é lá que está confinada a esperança do Brasil.

Abaixo, a pirâmide demográfica brasileira. No eixo y, temos a idade dos cidadãos e, no eixo x, temos a quantidade de pessoas por idade (à direita do eixo y, a população de mulheres, por idade, e os homens ao lado esquerdo). Calculando a área da pirâmide, temos a população total.

Vejamos o gráfico abaixo que relaciona a proporção de crianças e idosos em 2005 e 2045. Em 2045, espera-se que os idosos representem cerca de 170% do total de crianças, ou seja, haverá quase duas vezes mais idosos do que crianças. O que se nota entre as situações demográficas de 2005 e 2020, é um alargamento do topo da pirâmide e o início de um estreitamento na base. Isso significa mais idosos e menos jovens, em termos proporcionais.

O censo de 2010 tem revelado tendências interessantes. A que desejo abordar é a queda na taxa de fecundidade da mulher brasileira que caiu de 6 filhos por mulher (na média) na década de 1960 para 1,9 em 2010.

Isso significa menos crianças e possivelmente, uma população decrescente em algumas décadas, se a tendência persistir. Porém, o que esse dado significa para nós?

Dadas as regras atuais de aposentadoria, uma parcela menor da população deverá produzir para que todos aqueles no topo da pirâmide usufruam a “melhor idade”. Mantida a legislação, 2045 é provavelmente o ano em que me aposentarei. No entanto, interesses pessoais à parte, o problema é garantir produtividade para que a população em idade economicamente ativa (PIA e PEA) consiga manter aqueles que apenas consomem.

Fica um problema: se a produção depende da quantidade de trabalhadores (lembre-se da China, para reconhecer a importância de uma grande população para o crescimento econômico), como poderemos produzir mais, com menos pessoas?

A resposta está nas novas tecnologias. Porém, para termos tecnologia precisamos aprender a usá-la (daí a importância da educação básica) e a desenvolvê-la (donde ser crucial o investimento em pesquisa científica e em desenvolvimento tecnológico).

As boas notícias são: (1) com menos jovens, a qualidade do ensino tende a aumentar (leia um texto sobre o assunto aqui); se as reformas na gestão escolar forem implementadas (leia um excelente texto do Prof. Naércio Menezes Filho sobre a questão da gestão escolar aqui) e os pais se comprometerem sinceramente com a educação dos filhos, o resultado será tanto melhor; e (2) o compromisso com o meio-ambiente pode abrir novos rumos para o desenvolvimento tecnológico nacional, focado em fontes renováveis de energia e padrão de consumo mais adequado com uma vida saudável tanto física e mental quanto socialmente.

Nossa riqueza pode se manifestar não apenas no “quanto” produzimos, mas no “como” e no “quê” produzimos. É o fim que direciona os meios, apesar de não justificá-los. E não ao contrário, como parece ser o caso, em que nos tornamos escravos das coisas que desejamos (leia o excelente artigo do Profa. Leda Paulani para O Estado de São Paulo). O futuro do “país do futuro” é semeado no presente, com ciência no planejamento, e vigilância e perseverança na realização.

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