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Essa semana, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) considerou que o impeachment do presidente Lugo, apesar de ter sido realizado de forma muito rápida, não poderia ser considerado um golpe de Estado e, que, portanto, a organização não deveria adotar sanções contra o Paraguai, conforme o Brasil, a partir da decisão de suspender o Paraguai do Mercosul e da Unasul, defende. A recomendação do secretário-geral da OEA, que ainda deve ser apreciada pelos membros da instituição, criou um mal-estar para a diplomacia brasileira, já que membros importantes, como os Estados Unidos, já se manifestaram a favor do relatório do secretário-geral.

Esse episódio aponta para algo delicado quando se fala em política externa: a confusão entre política de Estado e política partidária. Conforme escrito no post anterior, uma das possíveis motivações do governo brasileiro ao defender a suspensão do Paraguai do Mercosul e da Unasul e, posteriormente, a adesão da Venezuela ao bloco comercial teria sido a solidariedade a governantes de esquerda que se comprometeram, a partir do Fórum de São Paulo, a ajudarem-se mutuamente para realizar suas plataformas de governo.

A aliança entre partidos de diferentes países, sejam eles de direita ou de esquerda, não tem nada de incorreto, pelo contrário, é uma forma válida de atuação política. Entretanto, o problema está quando essas alianças acabam se tornando uma das bases da política externa de um Estado.

A política externa de um país deve se basear não em questões ideológicas ou político-partidárias, mas sim nos interesses nacionais do Estado. Desde a vitória do PT, a chancelaria brasileira vem colhendo derrotas no plano regional, muitas vezes, devido a essa solidariedade aos governantes regionais de esquerda.

Desde o governo Lula, um dos objetivos brasileiros na América do Sul é alcançar a liderança regional e usá-la como plataforma para a atuação internacional do país, já que um líder regional possui maior peso e prestígio perante seus pares internacionais e, portanto, teria maiores condições de alcançar seus objetivos de política externa, o que, do ponto de vista pragmático, é uma estratégia válida, utilizada por diversos países.

Entretanto, essa estratégia vem sendo construída de forma confusa, já que a diplomacia brasileira, em nome dessa propagada liderança acaba por fazer demasiadas concessões aos países da região em detrimento aos seus próprios interesses. Até o episódio paraguaio, a postura brasileira vinha sendo de conciliação, conforme pode-se lembrar do episódio da nacionalização da exploração de gás natural e da defesa da entrada da Venezuela – considerada por muitos um regime não democrático – no Mercosul. Agora, em relação ao Paraguai, a diplomacia brasileira resolveu modificar a sua postura e defender, de forma mais contundente, a democracia na região, demonstrando que a atuação brasileira na região vem se pautando por critérios ideológicos e não pragmáticos.

Além disso, o Brasil, apesar dessa postura, não vem obtendo a solidariedade de seus parceiros de esquerda sul-americanos, conforme pode ser demonstrado pela política protecionista de Kirchner em relação aos produtos brasileiros e pelo voto contrário daquele país em candidatos brasileiros a postos-chaves em organismos multilaterais assim como pela tentativa de Lugo em renegociar o Tratado de Itaipu, que faria com que o Brasil pagasse mais pela energia que importa do Paraguai, apenas para citar alguns exemplos de que o Brasil não vem obtendo muitos ganhos na América do Sul nos últimos tempo.

Dessa maneira, devido a essa confusão entre política partidária e política de Estado, o Brasil não conseguiu ainda alcançar o seu objetivo de tornar-se um líder regional de fato, reconhecido por todos os seus pares regionais. Esse relatório da OEA e a possível não-aprovação de sanções contra o Paraguai é mais uma ilustração dessa confusão e demonstra que a chancelaria brasileira estar-se-ia pautando não em princípios e objetivos nacionais, mas sim partidários e ideológicos, o que pode ser extremamente prejudicial ao país no longo prazo.

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