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É comum notarmos que os preços não caem. Em geral, ao longo do tempo, eles vão subindo. Às vezes, vagarosamente, em outras, acelerados, geram a sensação de que estamos sendo enganados por um inescrupuloso comerciante.

Por quê a inflação, que significa taxa de variação do nível geral de preços, não é zero? Esse seria o ideal, não?

Pois bem, o ideal fica para o plano das ideias. No mundo real, vigora a imperfeição, o desequilíbrio, a hierarquia, a fricção. Enfim, as coisas são um pouco diferentes do que deseja a nossa mente repleta de valores simétricos e substantivos.

No Brasil, há muito tempo temos uma inflação persistente. Os motivos dessa persistência já foram debatidos e ainda animam controvérsias, uma vez que com a mudança da economia, mudam também os causadores da elevação dos preços. O gráfico abaixo mostra como a inflação mensal se estabiliza em um patamar positivo em torno de 0,4%.

Inflação é o aumento sistemático e generalizado dos preços da economia. Pode ser causado por um descompasso entre oferta e demanda. Se há muita demanda, os preços sobem; o mesmo ocorre se há pouca oferta. Essas são as formas básicas de inflação.

Há uma outra, muito praticada no Brasil, chamada de inflação inercial. A ideia é simples: os preços hoje sobem porque subiram ontem. É o que os economistas dão o empolado nome de autorregressividade. Basicamente, o que ocorre é um repasse da inflação passada para os preços presentes.

O mecanismo que permite essa ocorrência é a indexação. Trata-se do procedimento de atualizar o valor dos contratos de acordo com algum índice de inflação. É o exemplo dos aluguéis, os quais são reajustados pelo IGP-M (Índice Geral de Preços-Mercado) calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

O Plano Real impediu que se reajustassem os contratos com intervalos menores de um ano. Porém, apenas desacelerou o ritmo. Como se vê no gráfico abaixo, 38% dos preços captados pelo IPCA-IBGE (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) são indexados. O gráfico abaixo mostra como os preços se estabilizam em um patamar, com resistência para baixo.

Isso torna difícil reduzir a taxa de inflação, porque uma parte importante dos setores repassa a inflação passada para o presente, fazendo do valor passado um piso além do qual torna-se difícil cair. Nessa situação, os instrumentos de política monetária têm sua eficácia reduzida.

É claro que desindexar a economia não é tarefa óbvia, muito menos banal. Como fazer com que as pessoas confiem na moeda? É preciso que o governo prometa manter sob controle a inflação, não gastando demais e não emitindo muita moeda. Se todos acreditarem nessa promessa com firmeza de esperança, terão menos inclinações a reajustar preços automaticamente.

Ainda assim, nada garante que o façam, uma vez que o hábito de reajustar preços é tão forte e tão arraigado, que talvez apenas uma nova lei que leve à abolição da indexação de contratos possa gerar algum resultado. O governo já vem reduzindo a indexação dos preços dos bens administrados (energia elétrica, medicamentos, telecomunicações etc.), mas ainda ela ainda é presente.

No entanto, todos querem mais renda, mais crédito, para consumir mais hoje. Mais consumo exige mais produtividade, para que o ritmo de produção acompanhe o ritmo de consumo. São os dois lados da tesoura de Marshall, oferta e demanda.

Infelizmente, coordenar os lados dentro de um intervalo de tolerância para evitar desequilíbrios é a alquimia buscada pelos economistas. E como a alquimia, é mais fantasia que realidade em potencial.

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