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Me permitam um tom mais descontraído deste texto, ainda que seja para tratar de um assunto muito relevante. Recebi nestes dias a visita de uma tia muito querida. Sempre conversamos apenas sobre amenidades, mas ela resolveu inovar. Pouco antes de ir-se embora, ela resolveu me perguntar: “Glauco, e o julgamento do mensalão?”. A estranheza não podia ser maior. Nunca imaginei conversar com ela algo de tamanha importância e, pego assim, de surpresa, respondi a ela que esperava que o julgamento fosse honesto e que se isto não ocorresse, o fato seria tão ruim quanto se o julgamento não ocorresse.

Pude entender, a partir desta simples indagação, que há ao menos três julgamentos em andamento sobre os acusados do mensalão. O primeiro é o julgamento social. Os acusados certamente não andam pelas ruas despercebidos e quando notados, não serão bem-recebidos onde quer que apareçam. Ouve-se histórias de que a filha de Marcos Valério teve de mudar de escola para evitar a amolação dos colegas e professores; José Dirceu já virou figura marcada em programas pseudo-humorísticos-jornalísticos em que é sistematicamente atacado; e por aí vai. São os cidadãos em sua convivência diária que criam sanções ao cotidiano destes indivíduos envolvidos no caso.

O segundo julgamento é o político. Muitos desses acusados tiveram suas carreiras políticas terminadas ou claramente reduzidas. José Genoíno não deve se eleger nem como síndico de prédio. Waldemar Costa Neto recebeu um fração ínfima dos votos que costuma amealhar na última eleição para deputado federal. Tudo isto se reflete, inclusive, na eleição de Dilma Roussef, uma figura política desconhecida do eleitorado brasileiro até anos antes da campanha que a levou ao Palácio do Planalto.

Estes dois julgamentos não são formais. Eles correm ao mesmo tempo, à mercê da compreensão que o conjunto da sociedade faz do caso, a partir das notícias que recebe. Neste sentido, a imprensa cumpre papel primordial. Há vários artigos sendo publicados neste sentido, como o de Jânio de Freitas e o de Paulo Moreira Leite que, apesar de ter sido editor da Veja, tem posição bastante diversa desta sobre o caso. Há, sem dúvida, um exagero sobre a importância do caso ao se dizer que este é o maior caso de corrupção da história do país. Se já impedimos um presidente de governar por corrupção, o que pode ser maior do que isto?

Por fim, há o terceiro julgamento, o formal que ocorrerá no judiciário. Este julgamento, por princípio institucional, aquele defendido tanto por juristas, quanto por economistas cujas teorias se baseiam nas instituições (como já foi apresentado em outro post aqui), deve ser técnico e se ater aos autos do processo, às provas que foram recolhidas e apuradas pela Polícia Federal. Tudo isto para se evitar a tão falada ‘incerteza jurídica’. A interferência que os outros dois julgamentos terá sobre este é indesejada. Não se pode esperar que a imprensa ou as outras formas de veicular a informação nos sirvam como fonte segura para estabelecer o julgamento que o Supremo Tribunal Federal fará sobre o caso. O poder das notícias deveria abranger apenas aos outros dois. Assim, nos resta esperar qual será o julgamento do judiciário e não achar que se o resultado deste julgamento diferir dos demais houve necessariamente falta de honestidades dos julgadores. Que sejam condenados aqueles a quem houver provas de culpa neste caso.

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