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Não é incomum o deslumbramento dos alunos com os mecanismos de funcionamento do mercado financeiro. Noto uma espécia de fascínio nos rostos dos neófitos na ciência triste, sempre que explico o modus operandi do mercado de capitais e sua extrema sensibilidade aos eventos diários, ou a dinâmica da taxa de juros no mercado de títulos públicos.

A economia financeira, bem como o estudo dos agentes econômicos sob incerteza e sob risco, contribui sobremaneira para o melhor entendimento da finança como instrumento de promoção da produtividade e do investimento. Tanto a prática quanto a teoria financeira têm o seu valor. O problema não é tanto a ferramenta (a finança), mas a forma de utilizá-la (especulação desmesurada).

Além de beleza intelectual, a engenhosidade da finança promete o que todo e qualquer ser humano se vê tentado a desejar: muito dinheiro com pouco esforço. Uma vida de mordomia material apartada dos incômodos do mundo do trabalho. Por isso, dada a proximidade temática entre Economia e Finanças, as pessoas em geral confundem uma com a outra.

Em outro artigo, iniciava definindo a economia como a ciência que estuda a forma como as pessoas ganham a vida. Em síntese, trata-se de como nos organizamos para sobrevivermos um dia por vez e, se obtivermos sucesso, como isso pode abrir os horizontes do homem para uma vida além da dimensão material fisiológica ou biológica. Como a matéria se torna também social: prestígio, admiração, convivência e compartilhamento.

Não é à toa que os bem-sucedidos na finança adquirem uma fisionomia destacada, um certo ar de magos, de milagreiros, dotados de poderes especiais, de intelecto aguçado e potente. Porém, precisam ser eles ou elas economistas? A resposta a essa pergunta foi dada pela Profa. Maria da Conceição Tavares (UFRJ) em recente e, sempre polêmica, entrevista à TV Senado. Assista abaixo.

É importante compreender que ganhar dinheiro no mercado financeiro é uma “tarefa social”, que exige mergulho na prática, grande dose de destreza com números e amplo conhecimento das variáveis que afetam determinado mercado em que se deseja investir. Esse é um ramo aberto a todos os cidadãos que desejarem dele participar, com a condição de terem dinheiro para entrar nessa “festa pobre”, para usar o termo de Cazuza.

É o que Keynes chamava, bem como Marx e outros, de rentista. É o sujeito que assume “a função social de tomar risco”. Ele é importante, pois todo mundo que queira se ver livre de um título (ações, CDB, CDI etc) para comprar um carro ou uma casa, precisa de alguém que o compre. Abaixo segue uma entrevista mais do que polêmica de um operador de mercado à BBC de Londres, falando supostas “verdades” sobre a maneira de se pensar a crise do Euro.

Mais tarde, outra reportagem destrincha a vida do “operador”, buscando mostrar que a entrevista fora um embuste, um malfadado ataque às finanças. Afinal, nem todo mundo no mercado financeiro pensa que o mundo vai acabar e que se deve tirar vantagem disso. Entretanto, se era mais pose do que substância o palavrório disfarçado de autoconsciência, por que o conteúdo não impressiona àqueles mais escolados na oratória da finança?

Como a finança pode se reproduzir desvencilhada dos incômodos da produção real, no dizer de Marx, “tudo que é sólido se desmancha no ar”, convertendo-se em dinheiro, em fluidez, é possível que a instabilidade se faça assídua (O livro de Marshall Berman, “Tudo o que é sólido desmancha no ar”, sobre as origens da modernidade é obre indispensável a qualquer cientista social).

As coisas mudam: “A natureza intrinsecamente especulativa da gestão empresarial traduz-se, nessa modalidade de ‘capitalismo moderno’, pela importância crescente das práticas destinadas a ampliar “ficticiamente” o valor do capital existente, tornando necessária a constituição de um enorme e complexo aparato financeiro”. (Prefácio de Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo apud François Chesnais, A Finança Mundializada, 2005, p. 8)

Marx, Keynes e Minsky (para ficar nos mais famosos) não se deixaram enfeitiçar pelas “promessas fáceis” da finança e buscaram compreender sua anatomia e sua organicidade, isto é, como ela se articula com a produção real, facilitando o crescimento, mas também precipitando a recessão. Para eles, o mercado de capitais é um elemento fundamental para o entendimento da economia e não deve ser menosprezado.

Ao contrário, deve ser mantido sob estrito e vigilante controle social. Dizia ele que na Bolsa de Valores, tenta-se descobrir “o que a opinião média espera que seja a opinião média”, o que pode levar a um imprevisível colapso; e arremata, dizendo que: “Quando o desenvolvimento do capital num país transforma-se num subproduto das atividades do cassino, ele não será bem-feito”. (Leia artigo do Prof. Delfim Netto à Folha de S.Paulo).

Ou seja, especulação desenfreada implica desprezo pelo problema econômico real, de caráter social, e reduz o escopo de preocupações dos agentes econômicos ao seu mais restrito e individual bem-estar. Pode-se chamar de efeito manada, ou “salve-se-quem puder”. Seja qual for a preferência, a crise financeira esgarça o tecido de confiança mútua entre os entes de um agrupamento social e deflagra o conflito interno, tornando ainda mais custosas as soluções necessárias.

Por aqui, o governo Dilma decidiu categoricamente colocar freios no mercado financeiro e direcioná-lo a um programa de redução do custo Brasil. Vejamos como a finança nacional vai reagir a essas restrições. Há muita água para rolar. Acompanhemos atentos!

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