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A maior parte dos analistas que tratam das eleições paulistanas tem tentado explicar o fenômeno Celso Russomano. Parte dessa movimentação decorre da perspectiva que a polarização PT-PSDB que tem dado a tônica no cenário federal se replicasse também em São Paulo, como inclusive foi tratado em outro post aqui, no qual se destacava a necessidade da compreensão da terceira força que Chalita e Russomano representaria. Sua liderança nas pesquisas, confirmada nesta quinta feira, torna-se uma surpresa, em certa medida. Do ponto de vista analítico, esta dificuldade se origina em um erro de previsão que, agora, se transforma em uma necessidade de explicação.

Essa diferença é característica importante das ciências sociais, em geral. Na Economia, por exemplo, Milton Friedman defendeu, em um texto já clássico: The Methodology of Positive Economics, (A Metodologia da Economia Positiva, em uma tradução livre) em favor de um ciência econômica que possibilitasse a previsão, fundamentalmente, mais do que a explicação. As teorias deveriam ser escolhidas a partir de sua capacidade de antecipação do futuro, mais do que pela tradução do passado. Os analistas econômicos e também os políticos trabalham neste sentido e buscam sempre que possível antecipar cenários. O problema é que para tratar do futuro buscamos informação no passado, confiamos que as relações identificadas são mais ou menos estáveis e que perdurarão no futuro próximo. Assim, olhamos para trás quando queremos falar sobre o que virá. Dentre as várias dificuldades neste procedimento, está a pergunta: que elementos do passado devemos considerar para tratar o futuro? A eleição paulistana é uma boa oportunidade para se avaliar esta situação.

Os fatores que provavelmente mais foram destacados pelos analistas no início do ano, antes das campanhas começarem efetivamente, estavam em parte baseadas na polarização nacional: de um lado, o PSDB que trazia seu candidato a presidência, José Serra, e de outro, o PT, com um novo candidato, Fernando Haddad, que trazia a benção e a expectativa de também trazer o capital político de seu padrinho, o ex-presidente Lula.

Os fatos que presenciamos agora mostram que esta projeção estava equivocada, o que torna a explicação mais do que necessária. No caso paulistano, a polarização histórica em torno da prefeitura nunca se deu entre PT e PSDB, e sim, entre a direita, representada pelo Maluf em boa parte do tempo, e entre a esquerda, representada pelo PT. Considere a tabela abaixo com os resultados em 1o turno, quando for o caso, das eleições para a prefeitura de São Paulo:

Esta tabela apresenta os resultados das eleições, com a posição dos candidatos em parêntesis, dividida em três grupos: a direita, o PSDB e o PT. Vale dizer que em 85, FHC concorreu pelo PMDB, mas, como é um dos fundadores do PSDB foi agrupado nesta coluna. Há várias informações bastante importantes neste quadro. A primeira é a de que, das sete eleições, em quatro delas a direita vence as eleições. O PSDB vence em apenas uma e o PT nas outras duas. Outra informação significativa é a de que o PSDB apenas vence as eleições quando o Maluf não é mais capaz de ser o representante da direita paulistana. A rigor, desde que foi instituído, o PSDB só chegou ao 2o turno em SP uma única vez, quando venceu em 2004. Já o PT, coloca-se como a alternativa ao malufismo, alcançando ao menos o 2o lugar, a exceção de 88.

Se a tabela acima representa alguma estabilidade no comportamento do eleitor paulistano, pode-se dizer que a má avaliação da gestão Kassab manteve o vácuo de representatividade da direita paulistana. E este espaço vem sendo pleiteado por Celso Russomano que, até o momento, parece se mostrar capaz de ocupa-lo  por sua relação seja com grupos religiosos, seja com emissoras de tv.

O fato é que a previsão construída baseou-se em alguns aspectos da política brasileira, negligenciando-se outros. Ao se buscar prever o futuro e errar, na verdade, abriu-se uma enorme necessidade de explicar o presente.

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