Tags

, , , , ,

Anteontem, o Ibope divulgou mais uma pesquisa de intenção de voto para São Paulo. Os resultados mostram Russomanno ainda em primeiro, mas 7% abaixo de sua última pesquisa (34% antes e agora 27%). Serra, com 19%, e Haddad, com 18%, permanecem tecnicamente empatados, oscilando dentro da margem de erro. Alguns analistas, representado aqui pelo texto publicado no Blog do Josias, enxergam a queda de Russomanno como um erro de estratégia dos candidatos tucano e petista. Ambos deveriam ter se comportado de maneira diferente da que fizeram porque os dados agora mostram isso. Essa análise me parece mais uma profecia do passado; a análise só é válida a posteriori e não havia condições de ser prevista, como afirmam estes analistas. Me explico.

O argumento apresentado que justificaria o suposto erro é o de que a queda na intenção de voto em Russomanno apresentada nessa semana se deve às críticas feitas ao seu plano de governo. Teria havido equivocadamente a presunção de que o pouco tempo de exposição na mídia ao longo da campanha seria suficiente para liquidar com sua candidatura. Portanto, não seria necessário debater contra este candidato. O tempo daria conta dele. Aponta-se ainda o fato de que as pesquisas já mostravam que sua candidatura não era negligenciável, o que só acentuaria o erro. Será isso mesmo?

Proponho um exercício. Coloque-se no início do mês de agosto e pense como estrategista de campanha de Serra ou de Haddad. Quem seria o seu alvo no caso de enfrentar um debate público sobre as propostas? A polarização PT-PSDB força uma resposta. Ainda que Russomanno estivesse já em primeiro lugar nas pesquisas, pareceria razoável supor que sua candidatura permaneceria em níveis tão altos? Você estaria equivocado se supusesse que esses resultados eram circunstanciais e que o seu principal inimigo seria o contestante do outro grande partido nacional? E depois, já nas pesquisas no início de setembro, época na qual Serra já iniciava a sua queda nas intenções de voto e Haddad ainda não apresentava sinais de crescimento, por que abrir uma disputa com o primeiro lugar nas pesquisas seria a melhor alternativa? Seria possível antever para onde o eleitor que desistisse de Russomanno migraria? Se por um lado, Russomanno obtém voto nas regiões onde o PT possui tradicionalmente mais força, o que favoreceria Haddad, por outro, não se poderia esquecer que o PSDB ganhou a eleição na capital paulista exatamente quando a direita não se mostrou forte o suficiente, fato que favoreceria Serra. Assim, nem a Serra, nem a Haddad parecia fazer sentido disputar com Russomanno, pois poderia exatamente favorecer o adversário ao invés de beneficiar o contestador. Além disso, esta disputa em torno da plataforma seria muito mais razoável de se fazer contra ele em um eventual segundo turno, o que era inclusive conveniente: não seria necessário alterar a estratégia de campanha já estabelecida. Por fim, há um componente relativamente desconhecido na eleição paulistana que é o papel do grupo evangélico na definição do voto em Russomanno. Não só não se sabia efetivamente a força deste grupo no apoio a este candidato, como também não era possível atribuir importância a estes laços. Talvez aqui resida um erro das campanhas de Haddad e Serra: terem subestimado este aspecto da candidatura de Russomanno.

Assim, me parece bastante cômoda a posição de se afirmar agora que houve erro de avaliação das campanhas de Serra e Haddad quanto a necessidade de abrirem fogo contra Russomanno. O próprio blogueiro citado não se colocou publicamente desta forma nos momentos em que ele mesmo aponta como aqueles em que o erro se justifica ao se olhar para trás. Nem ele foi capaz de antever esse erro de estratégia que agora aponta. Realizar profecias do passado é uma atividade realmente simples e nesta, não há nenhuma margem de erro.

Anúncios