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Foi bonita a festa, pá… fiquei contente

Chico Buarque (Tanto mar)

Há algum tempo, venho querendo comentar sobre o processo de negociação do centro universitário da FECAP. As pressões são fortes quando nos encontramos no meio do caldeirão, remexidos pelos acontecimentos mais recentes, pelos boatos que se metamorfoseiam em verdades precoces e ganham hierarquia superior com relação a tudo o que foi percebido anteriormente. É o que se chama de tibieza, isto é, a incapacidade de se manter firme em um ponto de vista, isto é, de dar ouvidos a – e concordar com – o último interlocutor.

Confesso que me encontro nesse ponto. As informações são atravessadas, sempre faladas aos sussurros, ou olhando-se para os lados. Por isso, não vou falar do processo de venda em si, para o qual já existe farto material e inúmeras reflexões, com extensões variando de 140 toques até milhares deles. Simplesmente compartilharei com os leitores algumas observações, a partir de impressões que colhi ao longo de alguns anos como militante do movimento estudantil.

A boataria

A cada momento, surge um fato novo, que alguém ouviu de outro alguém e, assim, a boataria segue essa progressão geométrica tendendo a zero, em que fica indeterminada a origem da informação; quanto mais se aprofunda nos questionamentos, menos se extrai da pessoa, a qual sempre alega: eu tenho um amigo que me disse… Relembrando o inesquecível Chicó, de O Auto da Compadecida: “Eu não sei como aconteceu, eu só sei que foi assim”.

As dimensões

Um processo de resistência abarca variadas dimensões e tantas outras nuanças. As primeiras dizem respeito à mobilização racional e emocional, às divisões internas, as alianças entre grupos que partilham dos efeitos da ação contra a qual se resiste. Tem-se que decidir o horário das reuniões, a pauta, o direcionamento, a estratégia de pressão, o formato da manifestação. Qualquer pessoa que já tenha visto a disputa, dentro de uma única turma, pela decisão de ligar ou não o ar condicionado, sabe como é difícil conviver com a diferença. Imagine mobilizar dentro de um único objetivo diversas turmas. É inevitável que, pela força da necessidade, vontades ficam reprimidas e escolhem outras válvulas de escape, que podem ser, inclusive, o boicote inconsciente do movimento, por conta de orgulho ferido ou de desânimo militante.

As nuanças

As nuanças estão atreladas às intensidades, aos ritmos, aos interesses, na maior parte das vezes, nublados por desejos escondidos, que encontram no movimento coletivo uma oportunidade de extravasar o que pode ficar bloqueado normalmente pela rotina que oprime as emoções. Uns querem barulho, apito, carro de som, parar a avenida. Outros desejam o debate, a construção intelectual do movimento, o suporte político de outras instituições e organizações da sociedade civil. E há outros que, simplesmente, não querem ter aula e se aproveitam do imbróglio para ter atendidos os seus não tão recônditos interesses. Há outras dimensões também, e dentro delas, cada um prossegue com a intensidade com que o clamor dos colegas lhe afeta. Há uns mais sensíveis, mais apaixonados, outros menos.

O protesto de ontem, dia 25 de outubro de 2012

Como se vê, um movimento de resistência é algo muito pouco trivial. Ontem, os estudantes mostraram a sua força de mobilização. É uma pena, todavia, que tantos corações ainda permaneçam intocados pelos sentimentos “alvarista” e “fecapiano”. As ausências foram sentidas.

Adianto que, independentemente do resultado desse processo, acredito que um saldo positivo permaneça: a noção experimentada, vivenciada, de que cidadania não se constrói com princípios de consumidor, mas com valores substantivos, tais como fraternidade, tolerância para com a diferença, respeito à comunidade e ao próximo.

Os alunos demonstraram clareza na organização, chegando a organizar a passagem dos carros, perseverança nas palavras de ordem, sintonia nos cantos de guerra – nem sempre com puxadores devidamente afinados. Enfim, fez-me lembrar da estratégia de resistência pacífica do grande Mahatma Ghandi, com um pouco mais de barulho. Alguns policiais militares se aproximaram da recepção da FECAP, indagando o tom da passeata, se eram estudantes, buscando prevenir qualquer balbúrdia violenta, ainda mais com um candidato à Prefeitura tão perto, ao menos no que diziam os boatos. Provavelmente, não estão acostumados à manifestação elegante de profissionais que estudam, que têm educação, que sabem contra o que estão lutando.

A abstração da luta

Trata-se de uma luta abstrata, é bem verdade. Qualidade no ensino é tão vago quanto lutar pela democracia em países ricos em petróleo. Mesmo assim, é fundamental que se aprenda o que a sala de aula não permite. A sociedade é construída pelas nossas vontades, pela força política. Ainda que não seja dessa vez a vitória, estou certo de que os filhos desses alunos serão educados de forma diferente do que o seriam até algumas semanas atrás.

A Constituição nos incita a lutar pelos direitos, como foi dito ontem. No entanto, é importante notar que nossa carta magna é fruto do momento vivido, das dores sentidas no passado, que era o da ausência impositiva de diversos direitos. Aos poucos, o Brasil começa a notar que os direitos devem ser alcançados pelo devido equilíbrio com os deveres.

A busca de uma educação de qualidade é uma luta constante, tanto no plano individual, quanto no plano coletivo. Implica desviar das distrações, das tendências imediatistas (tanto no aprendizado, quanto nos rendimentos monetários da atividade), dos atalhos. Está mais associado ao investimento em infraestrutura, em saneamento básico, do que em mercado financeiro, no sentido de ter retornos demorados, mas consistentes. E, por isso, exige vigilância da parte de todos, instituições públicas e privadas de ensino, organizações da sociedade civil, professores e alunos, pais e mães.

Por fim, parabenizo os alunos por vocalizarem suas demandas de maneira tão madura. Voltaremos ao tema em outra ocasião. Como sempre, sabia exatamente onde este texto iria terminar. Mas ele terminou em outro lugar.

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