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Ainda logo depois do 1o turno, alguns analistas defenderam que a polarização PT-PSDB, protagonista das disputas eleitorais no cenário nacional nas últimas cinco eleições é organizadora do sistema político como um todo. Porém, esta constatação, se bastante válida para as disputas federais, parece não se sustentar com facilidade nos pleitos municipais. Há evidências teóricas e empíricas para se contestar a polarização.

Do ponto de vista teórico, deve-se partir da ideia que lançar um candidato a qualquer cargo envolve custos de pelo menos duas ordens. A primeira é a de que é preciso ter quadros capazes de concorrer aos cargos em disputa. O partido precisa ter algum apelo para que políticos competitivos queiram concorrer a determinado cargo. A segunda refere-se aos gastos efetivos com a campanha. Lançar um candidato a qualquer cargo envolve custos que serão pagos pelo partido ou pelo próprio candidato, prática comum nas disputas para os cargos legislativos. Ambos os custos tendem a reforçar algumas legendas já fortes, consolidadas, que tem acesso a recursos, o que em parte explica porque PT e PSDB polarizam as disputas para presidente. Porém, no caso das disputas para as prefeituras, os custos são muito menores relativamente nos dois sentidos: legendas menos consolidadas têm mais chances, mesmo que em cidades menores, e os custos de uma campanha são bastante reduzidos se comparados com aqueles envolvidos em disputas para o governo estadual, por exemplo. Ou seja, os partidos menores, não nacionalizados, tem condições efetivas de lançar candidaturas nos diversos municípios do país, de alguma maneira reduzindo a polarização dos partidos nacionais.

Já do ponto de vista empírico, há diversas evidências a serem consideradas, todas em perspectiva temporal. A primeira é quanto o número de prefeituras que os partidos conseguiram. A segunda é o número de candidaturas apresentadas e o percentual de “sucessos”. A terceira é o número de candidaturas em que ambos os partidos participam de uma mesma chapa. Com relação aos dois primeiros pontos empíricos apresentados, a tabela a seguir traz informações relevantes:

São apresentados os 10 partidos com maior número de prefeitos eleitos em 2012. Na coluna “Candidatura”, constam os números de candidatos lançados por cada partido, considerando o partido como o cabeça da chapa. A coluna “Efetividade” apresenta o percentual de candidatos que se elegeram do total de candidaturas. Como se nota, o PMDB é o único que sistematicamente lança mais de 2000 candidatos a prefeito desde 1996. DEM e o PSDB já o fizeram, no período em que ocuparam a presidência da República. A partir de então, o número de candidaturas cai, notadamente para o DEM. Já o PT atinge o ápice em 2004, com 1920 candidaturas, recuando nos dois anos seguintes. O que chama atenção é o percentual de efetividade atingido por estes partidos. O PSDB, em 2004, elege quase metade de seus candidatos a prefeito (47,5%), com a maior efetividade de toda a série considerada. Hoje, o patamar de 40% é similar ao dos demais partidos com grande número de prefeitos. Já o PT, esta performance se acentua dramaticamente ao longo do tempo, mas ainda está abaixo dos resultados dos demais partidos. No início da série, estava em torno de 10% e agora atinge 34%, resultado idêntico ao obtido no pleito de 2008. Nota-se, com estes dados, que não há protagonismo dos partidos nacionais PT-PSDB sobre as disputas municipais.

Já quanto às coligações feitas entre PT e PSDB, a tabela abaixo também contribui com informações importantes:

A tabela acima apresenta o número de candidaturas nas quais PT e PSDB participaram nas respectivas eleições, independentemente de serem cabeças de chapa ou não. Na coluna “Coligados”, consta o número de candidaturas cuja coligação compunha ambos os partidos. Este número representa algo em torno de 20% das candidaturas nas quais PT e PSDB se envolveram ao longos dos anos, a exceção de 2000 para o PSDB. Mas seja como for, estes dados também não apresentam um oposicionismo claro ou que tenha se acirrado ao longo do tempo. Ao contrário, ambos parecem manter alguma relação que deveria ser matizada pela consideração do porte das cidades nos quais a coligação é feita.

Assim, a ausência de nacionalização dos partidos políticos brasileiros parece explicar esse descompasso entre os resultados municipais e nacionais. PT e PSDB são dois partidos protagonistas na arena nacional, mas compartilham o poder no nível local no Brasil.

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