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Se seria considerado comum, logo após um período eleitoral, ouvir reclamações a respeito das escolhas que os nossos co-cidadãos fizeram sobre quem nos governará pelos próximos quatro ano, o contexto no plano federal torna o cenário ainda mais recorrente. Já desde o Governo Lula se ouve lamentações por sermos governados por alguém ‘iletrado’, ‘despreparado’, que não teria condições de liderar o país e tal ladainha tem se repetido nas conversas sobre política. Este discurso condensa um pensamento bastante comum relacionado ao processo democrático brasileiro: o povo brasileiro não sabe votar.

Ao se colocar uma afirmação como esta, emergem ao menos dois aspectos que merecem análise. O primeiro deles é o de que haveria um modo correto ou superior de escolha dos governantes. O segundo mais implícito, mas não menos comum de se ver associado à ideia de que não se sabe votar, é o de que o nível educacional afeta estas escolhas políticas. Vamos explorar brevemente cada um deles.

Como se sabe, ou deveria ser conhecido, vivemos em um regime democrático. Ainda que haja debate acadêmico sobre o que caracteriza tal regime, basicamente há consenso em um aspecto fundamental: na escolha livre e individual de seus governantes pelos cidadãos de um país. O que parece ser relevante aqui é notar que a escolha é livre e individual. Isto implica dizer que cada um estabelece um critério para a seleção do líder e aquele com maior número de indicações assumirá o governo. Um bom candidato ao governo, portanto, é aquele com maiores condições de angariar maior número de indicações, seja lá por qual motivo for. Não se estabelece a priori quais são os critérios pelos quais os candidatos devam ser ordenados; em um caso como este, teríamos um concurso público e não uma eleição livre. Cada cidadão é livre para escolher o candidato que ele julgar individualmente como o mais adequado de acordo com sua percepção sobre o mundo. Neste sentido, Sarney, Tiririca e Fernando Henrique transmitem para uma parcela importante do eleitorado uma imagem que encontra correspondência a esta percepção de mundo. Portanto, se tornam bons candidatos e podem vencer eleições, como o fizeram.

Volto a insistir no ponto: quando busca-se defender que há qualidades fundamentais, necessárias a um candidato para que se melhor governe o país, deve-se atentar ao fato de que esta percepção individual é tão boa quanto à daquele que julga que todo político é igual. O sistema democrático liberal comporta ambas as visões assim como comporta qualquer outra visão intermediária, e ninguém que defenda qualquer uma delas pode afirmar que sua posição é superior: a regra do sistema permite  escolhas de qualquer um destes tipos.

Em um contexto como esse, cabe verificar, então, quais são fatores que explicam as escolhas que os indivíduos fazem concretamente, apesar de seus discursos ideológicos. Esta verificação ataca o segundo ponto. No Brasil, a reeleição de Fernando Henrique, a ascensão de Lula em 2002 e sua reeleição e a eleição de Dilma estão todos marcados por um aspecto importante: o desempenho da economia brasileira no período pré-eleição. O gráfico abaixo ilustra bem esta questão:Graf_PIB_Desemp

Nos períodos em que antes da eleição a economia caminhava bem, avaliada aqui pela variação do PIB e do Desemprego, o partido no poder fez seu sucessor. Quando a performance caminhava mal, houve troca no poder. Esta ideia de que o voto é econômico tem sido aplicada nos EUA também com bastante sucesso. Ademais, esta é uma teoria que tem sido utilizada para explicar o resultado eleitoral em países de democracias anteriores à brasileira, e em países nos quais não se questiona a baixa qualidade do sistema educacional. Estas afirmações tiram de cena a ideia de que a baixa qualidade na educação do brasileiro é o que explicaria necessariamente essa suposta ‘péssima’ escolha da população. Basta lembrar que Bush foi eleito nos EUA, Berlusconi na Itália, Le Pen na França, Putin na Rússia, e não podemos dizer que estas escolhas, ainda que controversas e polêmicas em seus países, tenham decorrido da baixa qualidade educacional destes povos. Me parece, ao contrário, que ao ver no Brasil surgirem evidências práticas da teoria do voto econômico que estamos caminhando para um modelo democrático semelhante ao desses países.

Assim, é preciso deslocar a discussão. Deveríamos atentar às justificativas do comportamento do eleitor e do político brasileiro de maneira ainda mais profunda para além das aparências, deixando de lado a mera explicação que o senso comum pode nos dar. O voto no Brasil parece ser tão bom quanto em outros lugares.

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