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O Natal, época em que o comércio se expande e o consumo é excessivo, não poderia deixar de ser objeto de estudo destacado dos economistas. A análise realizada sobre esta época do ano em particular evidencia, ao menos em parte, um dilema entre a Economia Positiva e a Economia Normativa, que se origina na fé no argumento de que os mercados constituem a mais adequada forma de alocação de recursos em qualquer sociedade.

Para os economistas, os mercados se equilibram. Isto significa que para uma determinada quantidade de pessoas dispostas a vender um determinado produto e uma outra quantidade de pessoas desejosas de adquirir este e outros produtos, o sistema de preços será o mais adequado indicador da relação entre os custos de produção dos bens e as vantagens relativas que cada consumidor atribui a estes bens. A Economia Neoclássica apresenta este breve quadro retratado aqui em um modelo chamado de Equilíbrio Geral, através do qual elegantemente se determina o vetor de preços que equilibra simultaneamente todos os mercados em uma determinada economia. Sendo uma ciência liberal, este modelo bastante sofisticado decorre do fato que todo sistema de trocas se pauta pela ação de indivíduos livres. Mesmo quando eles não são concretamente livres, pode-se enxergar suas ações como resultantes de uma escolha livre. Seja como for, a Economia está fundada em um princípio liberal no qual ninguém é capaz de dizer qual a melhor escolha para a outra pessoa. Só o indivíduo é capaz de falar de si.

Mas o que isto tem a ver com o Natal? Em 1993, na conceituada revista American Economic Review, Joel Waldfogel publica um artigo chamado “O peso morto do Natal” (no original, The Deadweight Loss of Christmas) no qual o autor argumenta que o ato de dar um presente para alguém implica numa perda entre 10 a 15% do valor efetivamente pago. Isto decorre do fato que aquele que dá o presente, ao tentar agradar o outro, em geral, erra. Aquele que recebe avalia o presente em um valor inferior ao efetivamente gasto. A conclusão do autor é a de que é melhor alternativa dar o presente em dinheiro ao invés de comprar um presente. Este artigo gerou uma série de outros textos nos anos subsequentes na mesma revista, inclusive chegando a resultados exatamente contrários: dar presentes aumenta os ganhos sociais, ao invés de reduzi-los. Neste caso, dar presentes chegava a aumentar o ganho em 25%.

A despeito das desavenças empíricas em torno de ato de dar presentes no Natal, o que nos interessa aqui é discutir a ideia de eficiência econômica implícita. Suponha por um momento que Waldfogel tenha razão e que dar presentes de Natal seja um ato ineficiente. Deveríamos, então, atender à solicitação do autor e não mais comprarmos presentes para alguém, mas apenas trocar dinheiro?

Ainda que tenhamos certeza de que ‘sim, eu deveria ter ganhado em dinheiro o valor que gastaram para me comprar aquele par de meias’, certamente há mais em jogo do que apenas a eficiência econômica. Além do estranhamento que seria uma noite de Natal em que um indivíduo dá a seu irmão R$ 50, mas recebe como presente R$ 30 (o que geraria uma situação bastante esquisita), há também não só a delicadeza do gesto de ser lembrado e de como se é lembrado (o que, por vezes, é perverso mesmo, como no caso do par de meias), mas também toda a simbologia que envolve o ato de se trocar presentes. OK, um economista neoclássico pode dizer que tudo isto está na preferência dos indivíduos e que, portanto, o modelo se adéqua. Mas a pergunta mais de fundo é: os atos sociais precisam ser eficientes? O que é prioritário: entender o que fazemos e porque fazemos ou buscar melhorar o que fazemos?

No caso em questão, essa disputa se torna evidente: de um lado, está a Economia Positiva que se preocupa com aquilo que acontece, com aquilo que de fato se dá no mundo real. Por outro lado, está a Economia Normativa, que faz recomendações, sugestões de arranjos tais que o resultado final seja superior, normalmente utilizando o critério da eficiência econômica. O que é mais importante: trocar presentes no Natal com as pessoas que nos importamos ou encontrar uma maneira eficiente de fazê-lo? A resposta me parece fácil: sinceramente, eu não me importo com os pares de meia que ganho…

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