No dia 15 deste mês, a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Raquel Rolnik, escreveu um texto no qual criticava a maneira pela qual a gestão Haddad dava início a um projeto-pilar de sua campanha eleitoral: o chamado Arco do Futuro. Segundo a professora, este projeto, que já está presente no plano diretor da cidade desde 2002, tem como objetivo “promover uma nova forma de desenvolvimento no entorno do que hoje é o centro expandido de São Paulo” em um trecho que engloba a marginal do Rio Tietê. Seu ponto de preocupação é o de que o edital dá apenas 60 dias para que as empresas interessadas apresentem projetos. Esta situação seria problemática porque não permite que se discuta o que se quer para a cidade; já pressupõe que haverá uma parceria público-privada para que o projeto saia, a despeito das necessidades de um projeto concreto; e que apenas as empresas que já estão envolvidas neste tipo de intervenção é que conseguirá cumprir o prazo, provavelmente adaptando projetos já utilizados em outros lugares ou já pensados anteriormente, não necessariamente afeitos às necessidades da cidade. Ou seja, estaria muito longe do que seria ideal.

Algumas questões, entretanto, merecem ser discutidas neste contexto. Um projeto que é desenhado desde 2002 não saiu do papel por qual razão ainda? E por que um prefeito recém-eleito que busca implementar um de seus programas de campanha mais importantes teve de optar por um caminho que está longe do ideal? Deixando de lado aspectos como incompetência técnica ou má-fé dos gestores públicos, deve-se atentar para os incentivos que estão presentes neste contexto.

Um primeiro ponto a ser tratado é: se esta obra consta no plano diretor desde 2002, por que nenhum outro prefeito a implementou? Desde 2002, houve três prefeitos diferentes na cidade: Marta Suplicy, José Serra e Gilberto Kassab. Nenhum deles atreveu-se a realizar tal obra. Tal constatação não pode ser obra do acaso. É possível assumir que esta obra seja cara, demorada e ainda tenha retornos para a cidade de mais longo prazo. Se estes fatores, bastante plausíveis, forem verdadeiros, a opção por implementar tal obra não teria os frutos colhidos pelo prefeito que a implementasse. Provavelmente, na lista de prioridades da prefeitura, surgiriam projetos mais baratos ou com retornos políticos mais imediatos, que se tornariam preferidos ao Arco do Futuro.

Mas se esta é a situação, por que, então, Haddad se arriscará a fazer algo diferente de seus antecessores? Suas alternativas são, então: descumprir uma promessa de campanha e não implementar esta obra. Deveria, nesta situação, alegar algum problema técnico de qualquer ordem no dia em que fosse cobrado por isso, como numa campanha pela reeleição na cidade; tentar fazer a obra da forma mais rápida que fosse possível. Nesta situação, o prefeito tentaria colher ainda algum fruto da implementação deste projeto ainda neste mandato de maneira a se cacifar para a reeleição em 2016; buscar fazer a obra da forma ideal. Nesta situação, Haddad teria como possibilidade apresentar à população seu projeto, a maneira como está sendo feito ao longo de seu mandato, de forma a convencer o eleitor de que dada a própria natureza da obra, a demora é inevitável, mas que os retornos seriam compensadores. Evidentemente, todas estas alternativas aqui apresentadas pressupõem que o prefeito buscaria a sua reeleição ou ainda alcançar uma boa avaliação pelos paulistanos de forma a almejar voos maiores em sua carreira política.

Qual alternativa deveria ser a escolhida por ele? Note que todas elas passam pela maneira como o próprio eleitorado compreende a administração pública e o timing de execução de seus projetos e de seus retornos. Isto não significa que a culpa é do eleitorado, evidentemente. Mas ele é parte do processo. E estes incentivos estão presentes desde o momento em que é dado um período limitado para o mandato político de um indivíduo através de escrutínio público. Infelizmente, situações como esta acontecem em qualquer democracia.

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