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A mitlogia nos oferece recursos cognitivos que facilitam a compreensão de uma realidade complexa. Deuses, monstros, homens com poderes avantajados, criaturas que misturam partes de homens e animais, dentre outros, constituem o repertório de imagens, personagens e suas funções dentro de um dado contexto, com vistas à apreciação de alguma verdade escondida pela aparência dos fatos. Figuras estranhas e amedrontadoras representam forças incontroláveis e desfechos inevitáveis.

É comum, no entanto, dizer-se que algo é um “mito” para desautorizar uma afirmativa, sob o pretexto de desmoralizar um argumento. Nada mais do que um vício de entendimento. O mito não é algo mentiroso, é algo “fantástico”, simplificado, que revela uma mensagem simples, porém oculta. É, pois, uma “verdade” vestida com as cores múltiplas da fantasia. Portanto, algo que não é verdadeiro é falacioso. Ou seja, traveste-se de verdade, mas não suporta o teste da análise crítica.

A discussão sobre a inflação é terreno fértil para o uso de tais metáforas e analogias. Tamanha a complexidade do fenômeno, cada participante no debate relata o que vê. Esse relato é uma história contada, formulada como mistura de dados colhidos, teorias favoritas e propensões políticas ou ideológicas (aqui, no sentido adotado por Destutt de Tracy). Uns dizem que o “dragão” da inflação voltou (como o fez o Prof. Glauco Peres em artigo recente aqui n´O Barômetro), outros que o barco da política monetária está à deriva.

Prefiro outras metáforas, de caracteres psicológico e endocrinológico. A primeira, a inflação no Brasil tornou-se uma fixação freudiana. Vive-se intensamente a neurose, sabe-se que se está vivendo-a, mas não se sabe o porquê disso nem como evitar se deixar enredar por ela. Reproduz-se o mesmo conjunto de justificativas, os mesmo hábitos, embora com novas roupagens e novas embalagens, mas tudo continua igual na essência.

Endocrinologicamente, a inflação no Brasil é tema de recorrentes preocupações, tal como uma doença autoimune do sistema econômico. Nesses casos, o corpo atua contra si mesmo, minando as bases de seu funcionamento equilibrado. Essas enfermidades são, em geral, tratadas com medicamentos e reposições hormonais e envolvem alguma mudança nos hábitos alimentares (no caso da diabetes) ou da vida cotidiana.

Em economês: há algo no nosso organismo institucional que tira rapidamente o dinamismo de nosso entusiasmo, sempre que começamos a engrenar na via do crescimento. E, como é comum nos casos médicos, o comportamento estranho pode ou não ser objeto de tratamento especializado. (Tratei desse tema em outro artigo aqui nesse blog)

Como se sabe, o tratamento depende do diagnóstico feito. Portanto, fica a pergunta: quando se diz que a inflação está preocupando, qual será a imagem que vem à cabeça do analista ou do jornalista? Será que a inflação está na antessala de um descontrole completo, ou estariam as coisas em ordem, apesar de oscilantes?

O gráfico abaixo é uma dessas histórias possíveis. Temos uma decomposição simples da inflação brasileira, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo IBGE, cujos dados tem base 100 em julho 1994. Analisa-se a série até dezembro de 2011. Utiliza-se aqui o método de filtragem Hodrick-Prescott, segundo o qual se decompõe uma série de dados em suas componentes de “tendência” (linha vermelha) e de “ciclo” (linha verde).

HP_IPCA

A inflação é determinada quase que exclusivamente pela componente de tendência, ou seja, forças constantes e estáveis que atuam sobre o comportamento do índice. A variável “ciclo” (linha verde) incorpora as oscilações frequentes, resultantes de choques periódicos que a complexa realidade tende a fazer incidir sobre a série de dados. A linha verde permite identificar o “efeito Lula” em 2002, jogando a inflação para dois dígitos naquele ano, bem como o efeito deflacionário da crise iniciada no segundo semestre de 2008.

No entanto, dizer que a tendência é predominante exige explicar as sua composição. Para tanto, precisamos de alguma teoria que conecte fatos aparentemente independentes dentro de uma cadeia lógica de causalidade.

Utilizarei um modelo econômico, que é uma representação simplificada e limitada da realidade. A análise que Mário Henrique Simonsen, ex-ministro da Fazenda, propôs com o seu modelo de realimentação inflacionária é bastante adequada. Simonsen formulou a seguinte decomposição da inflação (abdico voluntariamente aqui da formulação matemática da mesma):

Inflação = componente autônoma + componente de realimentação + excesso de demanda

A componente autônoma é, por definição aquela que independe da inflação do período anterior, sendo determinada por fatores de ordem institucional (reajustes arbitrários de salários, da taxa de câmbio, de impostos indiretos) ou de natureza acidental (altas de preços provenientes de más safras etc.).

A componente de realimentação é aquela que resulta da inflação anterior, derivada da tentativa de reconstituição, pelos agentes econômicos, de uma participação no produto nacional dissolvida pela inflação passada. (É o que o Prof. Delfim Netto chamou de “teoria gregoriana da inflação”, segundo a qual a inflação sobe, não porque aumentaram os custos ou ficou maior a demanda pelos produtos, mas por que mudou o ano civil).

Por fim, a componente de regulagem de demanda que denota o efeito da intensidade da demanda sobre a alta dos preços. Ou seja, se faltam produtos por excesso de demanda, os preços dos mesmos sofrerão elevação. Haveria uma taxa de crescimento que não causaria elevação dos preços. Abaixo dessa taxa, a inflação seria causada pelas outras componentes. Acima dessa taxa ótima, essa componente participaria do resultado inflacionário. Dificilmente, o resultado pífio de 1,7% de crescimento do PIB no ano passado pode justificar a inflação de quase 6% em 2012.

Cumpre assinalar que apenas essa última componente é sensível à elevação da taxa de juros, tão solicitada pelos agentes febris do mercado financeiro. Terá tal terapia o mesmo efeito desinflacionário sobre as outras componentes? Leia sobre a reação da Presidente da República à pressão pela elevação dos juros.

Há elementos de ordem histórico-institucional, tais como a posição defensiva contra possíveis elevações de preços que leva a inserir as cláusulas de indexação em diversos contratos, a proteção tarifária contra importações, os subsídios a diversos produtos e a elevada – porém, cadente – carga de serviços de juros que penaliza o orçamento público e inviabiliza os investimentos públicos sustentados em setores fundamentais.

Enfim, há mais para a inflação brasileira do que apenas uma regra monetária de elevar a taxa de juros, sempre que o índice de preços apontar para cima. A imagem forte do dragão representa bem o nosso desconhecimento acerca das forças que conduzem a inflação. E nisso, o economista especializado não tem muita vantagem sobre o cidadão comum. É preciso ter humildade para reconhecer que sabemos muito pouco sobre um fenômeno dinâmico como esse.

No entanto, isso não significa que devamos nos render ao problema, como o fazem algumas pessoas que, sabendo que sofrem de hipotireodismo, sentem-se justificadas em comer mais, submetendo-se a compulsões e culpando a inevitabilidade dos sintomas da doença, agravando ainda mais o problema que as maltrata.

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