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O artigo de hoje é pseudopedagógico e pseudofilosófico. Não sou filósofo nem pedagogo. Mas escreverei com o alma.

Professor é uma profissão abençoada. Temos a oportunidade de viver intensamente o conturbado processo de crescimento do ser humano. Seus conflitos, seus deslizes, seus talentos, seus descaminhos… tudo se passa à nossa frente e, frequentemente, precisamos aceitar calados as escolhas dos estudantes, mesmo sabendo que o resultado de alguns hábitos não será bom. Trata-se de costumes arraigados de difícil desmobilização.

O grau de empenho nos estudos é sintoma de maturidade e do estágio moral em que se encontra o estudante.

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Aqueles mais empenhados costumam ter um destino diferente dos que facilmente cedem às distrações e aos encantos de uma vida repleta de prazeres fáceis. Esmeram-se em conhecer cada vez mais. Não desistem diante das dificuldades, procuram soluções e ficam eletrizados pelos desafios, por mais “inúteis” que sejam. Seu prazer advém de sua reconhecida “ignorância” quanto às coisas do mundo e da vida.

Perdoam seus professores por não serem merecedores de seu respeito e de sua atenção, por não terem todas as respostas, mas os respeitam assim mesmo e, incrivelmente, prestam atenção a tudo o que é dito. Compensam com o entusiasmo o que falta em maestria a seus professores. Por fim, superam seus mestres com facilidade. Sua vida é repleta de cores vivas. Seu interesse é como uma esponja absorvente da realidade que os cerca.

Já os “usuários do conhecimento”, os espertos, os “práticos”, os convictos – dentre outras modalidades – funcionam de forma diferente. Dependem sempre que se diga para quê serve algum conteúdo passado: exigem do professor a oferta antecipada de alguma satisfação em troca de sua atenção. Deixam claro que pouco – ou nada – eles têm a aprender. Revestem-se de certezas tranquilizantes, anestesiando a formidável angústia do não-saber.

Convictos que são, sua determinação tende a intimidar àqueles mais receptivos à novidade, ao adverso, à alteridade. Suas vidas acabam se encerrando naquilo que já conhecem. Confundem forma com conteúdo. Saem do templo universitário com a mesma densidade intelectual com que entraram. Seu mundo prossegue sendo um mundo de aparências. Quanto mais eles mudam, mais percebem que tudo continua igual.

Qual deles você é?

(Asseguro-lhe que falo com conhecimento de causa. Já fui os dois tipos e constantemente me pego desempenhando o segundo papel, pois reforça nossa autoestima e nos faz crer numa autoimagem que é real apenas em nossa mente.)

Portanto, como professores, somos aspirantes ao posto de profeta. Estes, como se sabe, especializam-se em fazer profecias. Mas, o que são profecias? Você deve estar pensando em Nostradamus e já deve imaginar que se trata de mais um economista com complexo de vidente.

Não, profecia é um mero exercício de estender ao futuro as tendências que se observam hoje. Já diz o poeta que nossos atos se tornam nossos hábitos e estes, nosso destino. Entendendo os hábitos, traça-se o futuro; enfim, faz-se uma profecia.

O propósito do profeta é alertar para a necessidade de uma mudança. Sua sabedoria advém do conhecimento que guarda dos erros que cometeu e daqueles que observou outros cometerem. Muitas vezes não tem o poder da oratória, nem a qualidade incandescente das palavras, para tomar os corações e arrebatar as paixões inferiores que preparam armadilhas ao futuro dos incautos. Sua busca é a mudança, quando esta é necessária!

Portanto, deixo uma pergunta: quando é um profeta mais bem sucedido: quando acerta ou quanto erra? Por isso, garanto: é um dia abençoado quando nós, professores, erramos em nossas profecias.

Bons estudos!

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