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Vou me permitir falar de coisas que não entendo. Por isso, caro leitor, tome o que vem a seguir como uma provocação e não como um tratado.

O que obesidade, a questão ambiental e a inflação têm em comum? Em termos dos sistemas fisiológico, produtivo e econômico, respectivamente, trata-se de limitações ao funcionamento dos mesmos. Além disso, os três referem-se a questões sociais de difícil prevenção e cujo controle se mostra muito elusivo. Por fim, são problemas enfrentados pelo Brasil de hoje.

O Ministério da Saúde vem acompanhando o aumento na proporção da população que apresenta tanto sobrepeso quanto obesidade. A saída encontrada tem sido a proliferação do procedimento da cirurgia bariátrica, pela qual se reduz o estômago do paciente, ou se aplica um anel que comprime o órgão, reduzindo a capacidade de ingestão de alimentos. Infelizmente, esse procedimento apenas controla o problema. A súbita perda de peso decorrente dele deve ser acompanhada por psicólogos, cirurgiões plásticos, endocrinologistas etc., antes e depois do procedimento. (É bem comum a incidência de alcoolismo dentre aqueles que se submeteram à “transformação estrutural de seus corpos”).

Acompanhando a mudança no “hardware”, é preciso uma “reprogramação do software”, isto é, na forma de se viver, nos hábitos alimentares e de pensamento, na postura perante o corpo etc. Entretanto, é bem comum observar-se apenas o resultado: a perda de peso. Do resto – é esperado – o tempo cuida.

obseidade

No que se refere à questão ambiental, é nítido o esgotamento de um pensamento econômico que desconsidera a exaustão dos recursos naturais e do espaço terrestre, tomando-o por infinito. Emerge a sociedade do pós-crescimento, da qual o Japão seria o imediato exemplo. Entretanto, costuma-se ter complacência com o desejo de manutenção dos padrões de consumo atuais. Particularmente, no que respeita a emissão de gases poluentes, optou-se por deixar o “mercado” resolver o problema de alocação de recursos, pela via da negociação de créditos de carbono entre empresas e países. Em suma, tudo o mais constante, evitemos ampliar a poluição. Vamos apenas redistribuir os custos do atual volume anual de poluição mundial. É, novamente, uma terapia paliativa, isto é, que acompanha o que é tido como irreversível e o intratável. A saída é desenvolver uma economia centrada em produção de conhecimento, gerando inovação. Em português claro: o ambientalismo tem que render lucro a quem nele investe. É apenas por meio de inovações tecnológicas que a matriz produtiva pode se tornar amigável ao ecossistema terrestre.

E a inflação? Metaforicamente, o Plano Real foi a cirurgia bariátrica do nosso sistema de preços. Desinflamos a economia. E depois? Vida nova, dieta nova, vigilância redobrada! Mas, será que estamos fazendo isso, ou apenas dourando a pílula, esperando que a inflação convirja “naturalmente” para uma meta arbitrariamente estabelecida. Infelizmente, acabamos nos restringindo a cultivar a estética de preços relativamente estáveis, sem nos preocupar com as causas fundamentais da inflação. Com isso, passamos a esperar demais de ações que apenas controlam o problema; nesse caso, a taxa de juros.

Subir a taxa de juros equivale a parar de comer por um dia, esperando uma perda permanente de peso. O resultado é apenas a desaceleração do metabolismo. Para-se de alimentar o corpo e ele reage, gastando menos calorias. Resultado: ficamos apenas cansados. Depois, come-se mais e acaba-se frustrando a tentativa de emagrecer. Mudanças estruturais se deram desde o início do plano, ao final de 1993. A renda média cresceu, o setor de serviços domina a economia, a indústria perde competitividade, o trabalhador está mais caro e mais raro, as aspirações de consumo dominam a agenda social e as decisões internas são crescentemente influenciadas pelo que ocorre no cenário internacional. É difícil aceitar a ideia de que o problema é apenas a “dose da medicação”, e não – digamos – “a dieta” da economia.

As três situações mostram as dificuldades enfrentadas por fenômenos cuja correção exige um novo padrão de comportamento, em vez de medidas “cirúrgicas” que desconsideram as “crises” e “choques” que recheiam as trajetórias incertas dos sistemas de que falamos acima.

Milagre é efeito sem causa. Orientar a vida pela esperança de sua ocorrência é submeter-se ao império das gratificações sem conquista. Rapidamente, estas se transmutam em desilusões e cobram a fatura pelo serviço ilusionista prestado.

Reflitamos!

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