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Em um ótimo artigo publicado no jornal Valor Econômico de hoje, os economistas Samy Dana e Leonardo de Siqueira Lima apontam as qualidades de um arranjo econômico como o chileno em detrimento ao modelo argentino. Segundo os autores, dentre todas as reformas instituídas no Chile durante o governo Pinochet, as mais importantes são aquelas que estimulam a livre-concorrência e o empreendedorismo. Essa visão, aliás, é compartilhada por quase todos os economistas das mais diferentes tradições. Porém, se é quase tão simples assim, por que o mundo inteiro não adota práticas deste tipo? Há várias respostas possíveis a esta pergunta, mas uma adotada pela ciência econômica é a Institucionalista.

Para se compreender a argumentação aqui, vale a pena apresentar a teoria bastante brevemente. Por instituição são entendidas as regras de convívio social, sejam elas formais ou informais. Estas instituições atuam como facilitadores da interação social. Um indivíduo não precisa raciocinar como a teoria econômica clássica pressupõe em todas as suas escolhas, mas pode seguir o que as instituições lhe disserem para fazer. As instituições são construções sociais a partir da interação entre os indivíduos que constituem uma sociedade e deles com o meio que os cerca.

Esta abordagem permite que se passe de afirmações normativas do tipo: “O país deve fazer isto ou aquilo”, para a compreensão de porque um país opta por esta ou aquela prática. De acordo com a perspectiva institucional, não é a toa que as mudanças implementadas pelo governo chileno ocorreram durante um período não democrático: a capacidade de adoção de medidas impopulares costumam ser bastante caras a qualquer governo que tenha de prestar contas a seus cidadãos. Isto vale notadamente nos casos em que os eleitores não estão convencidos de que as mudanças são necessárias. Imaginem o que aconteceria se um governo democrático implementasse “políticas econômicas necessárias” que causem recessão por 10 anos! Por outro lado, a capacidade de implementar mudanças, quaisquer que sejam elas, implica que o implementador veja vantagens com as mudanças. Isto quer dizer que os “vencedores sociais” do atual status quo, a elite econômica e política de um país, precisa desejar a mudança. Ou que os que pedem mudanças tenham condições de impo-las.

Neste sentido, as sugestões de que mudanças sejam implementadas, e que são aceitas por grande número de economistas, não são seguidas pelos governos dos países de todo o mundo em razão, simplificadamente, do arranjo institucional presente naquele país. A implementação de mudanças é bloqueada por aqueles que se beneficiam do status quo. E além do mais, vale notar que os países que serviram de exemplo ao longo da história, como Inglaterra (com a revolução industrial), os EUA, o Japão, a Coreia e o Chile, neste caso, quando fizeram suas escolhas de sucesso não tinham outros exemplos a serem seguidos. Arriscaram, como vários outros que acabaram com insucesso nestas mudanças cujos exemplos os relegaram a irrelevância histórica.

Assim, se por um lado a adoção de arranjos institucionais ruins são historicamente perversos para o crescimento de um país, por outro, com esta perspectiva teórica saímos deste estado de aflição que é o de julgar todos os demais incompetentes o suficiente para não adotar as ações corretas. O que a perspectiva institucional nos diz ainda é que a simples replicação de arranjos institucionais de um lugar não funcionará em outro na mesma medida. Por isto, o Chile é nosso exemplo, sem dúvida, mas talvez mais pela coragem de implementar mudanças em determinada direção do que como modelo para adoção de regras rigorosamente iguais.

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