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Na noite de ontem, as manifestações contrárias ao aumento da tarifa de ônibus transformaram a realidade dos moradores da cidade de São Paulo. Os manifestantes caminharam em protesto por várias regiões da cidade em represália ao aumento de R$ 3,00 para R$ 3,20 pela viagem de ônibus. Ao mesmo tempo, lê-se nas redes sociais pessoas que se posicionam contra as manifestações, principalmente pela sua relativa baixa importância ou pelos atos de vandalismo que a acompanharam. O que se pode tirar desta situação? Há pelo menos, a meu ver, duas considerações importantes sobre o tema.

A primeira tem a ver com a manifestação em si. É de curso corrente a interpretação de que o brasileiro é despolitizado, que não se manifesta para quase nada, apesar dos escândalos de corrupção, má gestão dos recursos públicos, etc. Se esta interpretação estivesse correta, o que justificaria os acontecidos de ontem? Provavelmente, haveria duas respostas: a primeira é a de que a população que saiu às ruas ontem agiria como massa de manobra de algum grupo menor, mais articulado e interessado em se beneficiar com tema; ou, a segunda, é a de que a interpretação acima não vale (se algum dia valeu) para caracterizar o brasileiro. Como já nos lembrava M. Olson, a ação coletiva só ocorre quando os indivíduos percebem que o benefício associado à ação compensar seus custos. Não me parece razoável supor que haja apenas um pequeno grupo articulado que faça com que cerca de 20 mil pessoas (nunca se sabe o número correto de manifestantes) saiam as ruas para protestar, se elas não perceberem algum benefício com isto. Pode ser ilusório este benefício, mas está na motivação das pessoas para a ação. Por outro lado, esta não é a primeira manifestação na cidade, nem será a última. Ontem mesmo, houve manifestações na cidade contra a política salarial do governo do Estado, na qual até mesmo a Polícia tomaria parte nas manifestações. Assim, não me parece refletir o comportamento do brasileiro a afirmação de que ele não é ativo politicamente de alguma forma.

A segunda consideração tem a ver com a motivação da reclamação: a sociedade brasileira passaria por problemas mais sérios do que o aumento de R$ 0,20 da tarifa, e que estes motivos, sim, seriam mais justificados, caso houvesse uma manifestação. Este tipo de argumento me parece absolutamente mal colocado por duas razões: a primeira é a de que a manifestação, embora coletiva, tem motivações particulares. Reclama-se daquilo que mais incomoda. Em segundo lugar, é necessário, ainda, que haja massa crítica para que se faça uma manifestação pública e um mínimo de organização. É claro que há manifestações espontâneas, mas estas são mais raras. É mais comum vermos um grupo liderar pessoas e estas todas se manifestarão se acharem a causa justa. Me parece bastante razoável supor que as pessoas tenham se manifestado por algo que as afete diretamente em sua cotidiano, por um serviço público pelo qual pagam e recebem imediatamente após o pagamento a prestação do serviço. Evidente que a corrupção, por exemplo, também é um problema grave e talvez até afete a mais gente. Mas o custo é difuso e menos perceptível pelos contribuintes, o que não é o caso das tarifas do transporte público.

Por fim, cabe salientar um ponto: particularmente, não sou favorável aos atos de vandalismo. Não acho que a violência seja justificada. Mas sua motivação é bastante clara e similar à necessidade de que a manifestação aconteça em grandes vias de circulação de pessoas: chamar atenção de todos. Se a manifestação acontecer em um lugar determinado para isto, ela será quase estéril e, portanto, sem eficiência nenhuma. A manifestação não deve, porém, impedir os demais de se locomover pela cidade, mas é basicamente impossível não querer que  a população seja politizada, manifeste-se contra aquilo que julgar abusivo, sem que busque chamar um mínimo de atenção para si. No caso, se não tivessem chamado a atenção de todos, não valeria nem este post.

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