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Diante das manifestações que ocorreram nessa semana, originadas pelo aumento da tarifa do transporte público em São Paulo, tanto dos ônibus quanto do metrô, os responsáveis políticos pelas decisões, o governador Geraldo Alckmin e o prefeito de São Paulo Fernando Haddad tiveram de vir a público manifestar-se. De início, os discursos eram similares: contra as manifestações, alegando a necessidade econômica do aumento da tarifa. Depois de quinta, houve dissonância: Alckmin manteve o discurso, enquanto Haddad, que estava muito mais contido em suas declarações, responsabilizou a polícia pelo confronto de quinta, mas sustentou o aumento das tarifas. Há alguma análise possível dessas declarações e a alteração de posição de Haddad?

A despeito das eleições, pode-se olhar para os políticos como office-seekers ou como policy-seekers. No primeiro caso, os políticos estariam voltados a conquistar um cargo público e a permanecer nele ou a buscar cargos superiores. Estas seriam suas principais motivações. No segundo caso, os políticos estariam mais preocupados em implementar políticas públicas ou a lutar por elas, mesmo que isto custe sua permanência nos cargos. Além disto, me parece necessário para entender o caso considerar que há uma constituency ou um conjunto de cidadãos-alvo para o qual o político se dirige quando dá uma declaração qualquer. Normalmente, se entende que este alvo é formado por um tipo ideal do eleitor daquele governante.

Pois bem. Alckmin diz que a polícia agiu para resguardar o patrimônio público, coibindo os atos de vandalismo e que, por outro lado, deve-se apurar uma suposta ocorrência de excessos por parte dos policiais. Neste contexto, o governador parece agir tanto como office- quanto policy-seeker. Seu eleitorado ideal, mais à direita do que o eleitorado petista, espera este tipo de declaração do governador, ainda que o PSDB não tenha originalmente se constituído para atende-lo. O cidadão antipetisita opta pelo PSDB nas discussões políticas e nas eleições até por falta de outras opções viáveis. Além do mais, o governador pode mesmo achar que o papel da polícia está adequado como está e que deve garantir a mais completa ordem. O discurso, apesar de parecer meio acanhado no tom, está correto no conteúdo pelas duas perspectivas.

Já no caso dos discursos de Haddad me parece haver uma certa confusão. Inicialmente, culpando os manifestantes pelos excessos, Haddad se afasta de seu eleitor ideal. Isto se agrava ainda mais quando diz que são eles, os manifestantes, a não querer o diálogo. Por outro lado, quando candidato, Haddad propôs a introdução do bilhete único mensal que permitiria qualquer pessoa a utilizar o transporte público da cidade por R$ 140/mês. Por que, agora, como prefeito, ele não retoma esta discussão, coloca de novo a proposta na mesa? Seria um discurso convincente para parte da população que o elegeu de que em 5 meses de governo não teria sido possível implementar este sistema. Não parece, portanto, que Haddad aja como policy-seeker por esta razão. Então, seria ele office-seeker?

A única alternativa para buscar alguma racionalidade nesta situação, com as informações disponíveis, é claro, é juntar sua postura com a declaração de José Eduardo Cardoso. O ministro da Justiça declarou que a Polícia Federal estaria a disposição para intervir no controle aos manifestantes. Cardoso é pré-candidato ao governo do estado pelo PT, disputando com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Estas declarações em conjunto endurecem o tom de responsabilização pelos atos da PM paulista ao governo do estado, o que é claro. Mas além disto, a proposta de Haddad sobre a implementação do transporte público poderia acalmar os ânimos de todos e com isto perderiam a chance de eventualmente desgastar o governador do estado ainda mais. Seria uma ação partidária, portanto, visando a disputa pelo governo do estado. Uma ação office-seeker, portanto.

Cabe dizer que isto são especulações, apenas. Se Haddad está agindo desta forma, é uma temeridade. Esperar que haja ainda mais confronto, na linha do ‘quanto pior, melhor’ seria até um absurdo. O prefeito se dispôs a conversar com os manifestantes e parece que haverá uma reunião com os manifestantes para 3a feira. Contudo, não se entende porque a prefeitura não retomou a proposta do bilhete único mensal nestes dias, nem porque a reunião de um assunto tão importante vai acontecer depois da data agendada para a próxima manifestação…

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