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Às vésperas da reunião do Copom, que ocorrerá amanhã, dia 28, as expectativas do mercado são de novo aumento de 0,5% na taxa básica de juros da economia, repetindo as ações das últimas 3 reuniões. Ao mesmo tempo, o Banco Central no últimos dias tem atuado com bastante veemência no mercado de dólares, cuja cotação saiu da casa de R$ 2,10 desde o início do ano para, a partir de junho, subir sistematicamente até R$ 2,40, ficando pouco abaixo deste valor nas últimas semanas. Assim, o governo parece alterar sua política de redução de juros ao mesmo tempo em que parece lutar para a manutenção ou mesmo redução da cotação do câmbio. O que estas ações sugerem sobre as intenções do governo?

O governo Dilma foi nomeado por muitos analistas como um governo desenvolvimentista. De maneira bastante simplificada, este seria um governo que seguiria um receituário keynesiano em essência. Mas o que isto quer dizer? Para buscar traduzir estes rótulos, vamos lançar mão de uma apresentação bastante simplificada já considerando o histórico de ações do governo Dilma: Em seu início, a equipe econômica forçou a taxa de juros básica da economia, a Selic, para baixo. De agosto de 2011 até fevereiro deste ano, a cotação diária da Selic divulgada pelo Banco Central passou de 12,42% para 7,11% a.a. Desde então os valores vem subindo e estão agora na casa de 8,40% a.a. com previsão de alta. Ou seja, pode-se dizer que as taxas se reduziram por 2 anos consecutivos para depois mudarem de sentido. Em que isto importa para o país?

Com taxas de juros mais baixas, duas variáveis internas à economia brasileira respondem: consumo das famílias e o investimento das firmas. Ambas tendem a aumentar diante de juros mais baixos. Porém, se o consumo das famílias crescer mais rapidamente do que as firmas puderem reagir para atender a este crescimento, deve-se observar inflação, pois as pessoas irão às compras e as quantidades de bens e serviços a disposição serão mais ou menos as mesmas. Por isso, neste caso, o tempo de reação das variáveis às mudanças nos juros se torna variável fundamental econômica e também politicamente, dado o consenso da opinião pública sobre a inflação. Por isso, a observação dos níveis de investimento se torna muito relevante.

Entretanto, o que se notou durante estes dois anos foi que a redução das taxas de juros não foram acompanhadas de um aumento de mesma magnitude nos níveis de investimento. O IBGE apresenta estes dados: em todos os trimestres de 2010, houve crescimento na taxa de formação bruta de capital fixo (indicador fundamental para a determinação do nível de investimento da economia). Porém a desaceleração destes valores se inicia no 1o trimestre de 2011 e se mantem em clara redução até atingir o valor negativo de -4% no último trimestre de 2012.

O diagnóstico do governo nestes anos foi o que de o sistema bancário seria o empecilho, já que não repassariam as reduções da Selic para os empréstimos, e resolveu então atacar com linhas de crédito dos bancos governamentais. Caixa Federal e Banco do Brasil expandiram suas linhas de crédito e entraram em mercados dos quais não participavam como forma de forçar os bancos privados a reduzirem os juros cobrados. Ainda assim, esta política não parece ter sido suficiente, não reverteu os níveis de investimento e a pressão inflacionária continuou. Ou seja, a pergunta que se coloca é: dois anos não seria tempo suficiente para que os chamados mecanismos de transmissão da política monetária operassem e permitissem que a queda dos juros funcionasse como motivador para os investimentos na economia brasileira?

Há até aqui a omissão de uma variável fundamental neste contexto: a taxa de câmbio. Seu nível em determinados patamares possibilitaria que as empresas nacionais competissem com as estrangeiras ou favoreceria as importações. O que tem-se notado desde 2010 é que a valorização do real frente ao dólar tem incentivado que as importações cresçam em ritmo acelerado. Elas basicamente dobraram de 2010 para cá. Em um trabalho publicado em 2012, Nelson Marconi mostra que a taxa de câmbio que possibilitaria às empresas nacionais competir com as importações seria em torno de R$ 2,75, valor que considera o nível tecnológico relativo e os custos unitários do trabalho. Este valor nunca foi atingido desde o início do governo Dilma e, considerando as ações do Banco Central, ainda levará um tempo para ser atingida, se é que há essa intenção.

Assim, neste contexto, podemos dizer que o governo brasileiro, se adotou política desenvolvimentista de fato, pode ser criticado por dois lados: por aqueles que não estão convencidos deste tipo de condução de política monetária, já que forçadamente reduziu as taxas de juros, gerando apenas inflação; e por aqueles que são favoráveis ao desenvolvimentismo, pois o governo não interveio no mercado cambial de forma a proteger a indústria nacional da competição internacional provocada também pelo aumento do consumo. Aparentemente, o governo desagradou aos dois lados e, dadas as suas últimas atitudes, parece caminhar para um modelo de gestão pouco menos heterodoxo.

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