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Desde as chamadas manifestações de junho, lemos notícias que sistematicamente apontam para a relevância da chamada opinião pública no processo de tomada de decisões dos governos em todas as instâncias. Podemos citar como exemplo destes diagnósticos as decisões sobre os preços das passagens e as decisões sobre os corredores de ônibus em São Paulo, o Programa Mais Médicos, o debate sobre o fim da votação secreta no Congresso Nacional e a decisão do STF sobre a reabertura do julgamento sobre o caso do Mensalão. Cada caso envolve atores diferentes (prefeitura, estado, União, Legislativo e Judiciário), mas a posição da opinião pública esteve sempre presente nas avaliações feitas. Mas, afinal, de que opinião pública se trata?

A avaliação sobre opinião pública é bastante difícil. Já seria conhecida a ideia de que “Opinião pública não existe. Existe opinião publicada”. Porém, sua utilização é contínua por analistas diferentes quando se trata de considerar as decisões que os políticos tomam. Esse costume parece fazer sentido, por outro lado, já que se espera que a sociedade civil ou os cidadãos tenham algum tipo de influência sobre as atitudes dos políticos. De que maneira esta opinião pública pode então ser pensada?

Há duas avaliações possíveis, ao menos, que estão interligadas: por um lado, pode-se referir ao exercício da representação e por outro, envolve o espaço ocupado por discussões técnicas na tomada de decisões do governo. Os cidadãos ao escolherem seus representantes, delegam poderes de governo a eles, e acabam por formar uma constituency – conjunto de pessoas que dão apoio a determinado político, marcadamente no período eleitoral. O problema, no caso do legislativo brasileiro, é que este grupo é difícil de ser encontrado, de ser definido. Quem são os eleitores de determinado deputado? é uma pergunta que em geral apenas o deputado sabe responder e ainda assim, não possui elevado grau de precisão. Mas seja como for, em um sistema proporcional, seria esperado encontrar diversos deputados que foquem sua atuação em torno de seu eleitorado específico e não discuta efetivamente “questões nacionais”. Seria possível julgar se esta situação é desejada ou não, mas seria um exercício de representação possível e valorizado por algumas pessoas, já que se veriam representadas nas escolhas que estes indivíduos façam em sua atuação profissional. De outra parte, um governo eleito majoritariamente, como no caso das posições executivas no Brasil, se vê de maneira mais sensível (pois a situação é também possível para um deputado) diante da possibilidade de expandir essa sua constituency buscando expandir seu eleitorado, angariando maior número de simpatizantes em fatias do eleitorado distintas daqueles que o elegeu. Neste sentido, o político sairia daquela constituency que o elegeu e caminharia na direção de atender à opinião pública, mais geral, que envolveria maior público.

Porém, ouvir esta constituency ou a opinião pública é sempre desejado? Serão produzidas as melhores decisões possíveis? Esta consequência quase natural da constatação anterior se refere à capacidade técnica de um governo qualquer escolher entre as alternativas a seu dispor e se relaciona a uma citação muito comum entre os economistas: a de que certos “remédios amargos” devam ser prescritos em nome de um resultado superior no médio prazo. Ou seja, em muitas das vezes, as decisões técnicas se colocam contrárias aos desejos ou à posição da chamada opinião pública e, tecnicamente, haveria justificativa consistente para que a medida fosse tomada. Em situações como essa, o que fazer?

Este dilema é a meu ver sem resposta. Um político que prefira olhar apenas para o eleitorado e adotar a posição da opinião pública ou de sua constituency se colocará muitas vezes em rota de colisão com as prescrições dos técnicos da área. Serão por esta razão criticados, já que haveria motivações científicas, por vezes, que argumentariam que a opinião pública está equivocada e que o político estaria, portanto, atuando em oposição ao bem estar da população. Por outro lado, aqueles que preferirem adotar o posicionamento eminentemente científico poderão entrar em choque com a opinião pública, o que não é nunca saudável para qualquer político que dependa de votos.

Na prática, o que me parece acontecer é que os políticos capazes de tomar decisões alternam suas posições diante de cada caso, ponderando os impactos sobre a sua constituency – ao tentar manter seus votos; sobre a opinião pública mais geral – ao tentar aumentar seus votos; e as considerações técnicas a respeito do tema tratado – por várias razões difusas, mas dentre elas estão a vaidade em ser o político a fazer algo de duradouro para o país ou apenas para não cometer grandes equívocos. Seja como for, o argumento da opinião pública é quase sempre emanado pelos próprios indivíduos que participam dela. Serão, então, distintos se o indivíduo estiver adotando uma posição de quem participa da constituency do político envolvido, se ele está na opinião pública mais geral ou se defende um argumento técnico. O político é quase sempre passível de ser criticado por algum desses aspectos, e, em última instância, a opinião pública por si de fato só não existe.

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