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Na semana que se passou, o Datafolha divulgou uma pesquisa que mostra que a maioria dos brasileiros deve ser considerada de direita. Cerca de 48% seriam colocados como de direita ou centro-direita, enquanto à esquerda caberia 30% dos respondentes e ao centro os 22% restantes. Este resultado, se não bastasse para chamar atenção sobre a importância da suposta ausência de partidos declaradamente de direita no país, pode ser contrastado com uma opinião recorrente junto aos movimentos autoconsiderados progressistas do país. Em uma época de manifestações de rua e de manifestações de estudantes, é muito comum ouvir comentários por parte dos manifestantes sobre a capacidade de manipulação da imprensa, que, ao influenciar a opinião das pessoas a respeito dos eventos que cobre, as manipula a pensar de determinada forma conveniente. Esse raciocínio bastante comum possui um problema de determinação causal que merece ser discutido e os resultados do Datafolha, ainda que possam estar incorretos, servem para ajudar na reflexão.

O raciocínio de que a mídia é manipuladora de opiniões deixa de lado a capacidade dos indivíduos em escolher aquilo que leem e de refletirem sobre o que leram. As pessoas que assistem a um determinado canal da rede aberta tem a capacidade de escolher um outro canal qualquer, inclusive o de uma emissora pública de televisão. Por que não fazem? A manipulação é tal que fazem as pessoas sequer cogitarem mudar o canal da televisão? Além do mais, as pessoas tem acesso à internet e à canais fechados de televisão. Ainda que uma das emissoras mais importantes da televisão aberta tenha o direito de transmitir seus programas em vários canais da televisão fechada, por que a internet, ao menos, não serve de contraponto a tamanho poder de persuasão? Evidentemente, os meios de comunicação detêm poder. Isto é inegável. Sua capacidade de escolher como fazer a cobertura dos eventos é parcial e denota um ponto de vista bastante particular. A questão é: o leitor não possui outra fonte de informação? Ele não consegue fazer o contraponto? Ele não é capaz de questionar aquilo que lê e procurar outro meio de comunicação que lhe pareça mais adequado?

De forma provocativa, gostaria de propor um raciocínio inverso, alterando a relação causal comumente estabelecida: as pessoas consomem os veículos de comunicação que são os mais próximos de suas ideologias. Eu não tenho nenhuma preocupação em provar este argumento, mas apenas de trazer algumas evidências que possibilitem-nos problematizar a compreensão corriqueira de que é a mídia a moldar as pessoas e nunca o contrário. A primeira evidência é esta trazida pelo Datafolha. Se 48% das pessoas seriam classificadas como de direita, contra 30% de esquerda, seria esperado que encontrássemos mais veículos de comunicação afinados com aquele público. Se considerarmos que os veículos de comunicação são empresas que vendem produtos, elas precisariam agradar seus consumidores, não? Assim, não adiantaria nada elas acreditarem em algo e buscarem manipular as pessoas para determinado lado se isso não fizer sentido para aquele que absorve o conteúdo.

Poderíamos nos perguntar também porque é que a tiragem de uma revista de grande circulação, como a Veja, tida como bastante conservadora, é da ordem de 1 milhão de exemplares, enquanto da Carta Capital, tida como progressista, é da ordem de 65 mil? Por que as pessoas continuam a consumir um produto que depende apenas de sua capacidade em ludibriar as pessoas?

Por fim, uma outra evidência é a de que, historicamente, esses não foram os únicos veículos de comunicação do país. Haviam outros que defendiam pontos de vista diferentes. Por que não duraram? Por que perderam a disputa? Alguém pode argumentar que os que restaram são aqueles detidos por elites econômicas e políticas, o que não resolve o nosso problema de causalidade, já que os detentores destes veículos podem ter se tornados membros da elite exatamente por serem donos dessas empresas de comunicação e não o contrário. Mas a pergunta é por que estes são os que venceram a disputa e não outros?

Todos os pontos aqui são especulativos e giram em torno do argumento da capacidade da mídia em manipular informações. Eu não tenho dúvida da parcialidade dos meios de comunicação e de sua capacidade em formar opiniões. Não há isenção ali. Entretanto, essas especulações servem apenas para ilustrar um ponto que me parece exagerado quando se avalia a extensão desta parcialidade. Os indivíduos podem consumir as notícias de acordo com sua concepção de mundo que, ainda que reforçada e remoldada pelas novas notícias que os atinge, em algum grau também é influenciada por outras condições sociais, como a família e região em que cresceu, concepções religiosas, etc. Atribuir toda essa capacidade à mídia me parece querer negar o fato, temerário, talvez, de que a imprensa seja supostamente conservadora porque as pessoas assim o são e não o contrário.

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